quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

E sobre o nosso futuro? Por que o vazio de ideias e planos?


E sobre o nosso futuro? Por que o vazio de ideias e planos?

Divergimos. Divergimos muito. Tanto que parece que não conseguimos concordar sobre nada. E sem isso, não há como fazer planos, consentir e concordar sobre eles e colaborar para construir uma sociedade melhor. Nossas grandes divergências vêm sendo tratadas como uma questão meramente politica. Fenômenos de enorme complexidade: como a questão da desigualdade social no Brasil, a questão ambiental, a questão da ordem social, dentre outras de repente parecem se descolar da realidade humana concreta, do tecido duro da vida, da ciência e da cultura e adentrar no domínio da politica de forma quase que total. É o relativismo levado a sua instancia máxima. Tudo parece uma questão de linguagem ou de opinião. A incerteza aflora e com ela o medo e a sensação de riscos ocultos. Profetas do apocalipse se aproveitam desse momento para construir a legitimidade do seu discurso alimentada por esse medo e do desconhecimento.  Alguns criam inimigos imaginários e constroem o seu poder sobre a sua capacidade “mágica e mística” de ler os passos e as artimanhas do inimigo. Não sou inocente a ponto de ignorar que a ideia de criação de inimigos é politica. Marx fez isso. Muitos outros hoje, à direita, também o fazem. Para a maioria de nós é como se todo o sentimento de “verdade”, de razão colada na nossa “experiência de vida” nos tivesse sido arrancado.
Uns anseiam por uma volta ao passado. Outros pegam certezas emprestadas de pensadores de outros países, com outra história. Vários veem que o circo pode pegar fogo e correm para trazer gasolina.
Victor Turner, um antropólogo dos bons, estudou os momentos de ruptura na sociedade dos Ndembu, no Zambia. Ele mostra que há momentos de transição e mudança que geram uma crise. Quando a ruptura é grande, há um período de intensificação da crise
até que haja uma ação reparadora que ajude a construir um desfecho (que pode levar à harmonia ou cisão social). Precisamos encontrar essa ação reparadora. No auge da crise, a sensação de falta de referencias e de estrutura clara para a ação pode gerar violência e confusão. Os esforços de reparação são importantes para evitar desfechos ruins. Precisamos construir vínculos e pontes.
No entanto, é um tal de filosofo de direita falar do complô de Gramsci e a revolução pela cultura por um lado, de professor de esquerda falar da elite inimiga do povo  por outra, de gente a favor ou contra a “escola sem partido”, ao estatuto do desarmamento, e tantas outras coisas numa polifonia ensurdecedora.  
Eu acho que tudo isso é apenas a superfície de um fenômeno bastante mais profundo: estamos, no ocidente, chegando ao esgotamento do antropocentrismo cartesiano. Descartes, ao tentar se desvencilhar do teocentrismo medieval, nos ajuda a olhar para o ser humano e reconhecer a sua razão e liberdade. Consegue se desvencilhar da ignorância mística e seu pensamento de certa forma inaugura a domínio da razão moderna. Passamos o século XX desconstruindo essa razão. Passamos da critica à modernidade para a pós-modernidade e agora para a falta de referencias e certezas.
 Marshall Berman, filosofo marxista norte-americano parece anunciar isso em seu livro “Tudo o que é sólido se desmancha no ar” – em parte reconhecendo o papel de Marx nessas desconstruções, por outra antecipando a falta de solidez que isso traria.
E agora?
Sim! As ideias de Marx ajudaram a esgarçar o tecido social e romper qualquer ideia fundadora de nação, como certa unidade de valores e crenças, dentro dos estados nacionais atuais. Mas países mais homogêneos e menos desiguais retiveram alguma sensação de destino comum. Nós, profundamente heterogêneos e desiguais, fomos jogados no nada. Na falta de referencias. De sentimento de comunidade. De sentimento de destino comum. Sem sentimento de vínculos o destino pode ser o da guerra de todos contra todos. Precisamos encontrar o que nos une. Precisamos construir uma memória de futuro e essa só emerge a partir da síntese entre “quem nós somos”, “de onde viemos” e da projeção para “para onde vamos”. Não concordamos sobre quem nós somos. Não achamos que viemos de um mesmo lugar no passado. Logo não conseguimos pensar em um futuro comum. Direita ou esquerda não importa tanto. Seriam apenas opções de caminhos para esse futuro. Ou pensamos no que nos une e naquilo que pode construir um futuro desejado para a grande maioria dos Brasileiros, ou não conseguiremos arrumar a nossa casa para que a politica reflita um projeto de país! Temos tudo o que precisamos para ser um país prospero e admirado. Mas nos faltam vínculos. E sem eles todo o resto importa pouco, pois não conseguimos colaborar para o futuro que gostaríamos de poder pensar.... de poder imaginar, de poder sonhar juntos para então sermos capazes de construí-lo.


domingo, 2 de dezembro de 2018


NOSSAS PESQUISAS SÃO CONCLUSIVAS: O PROBLEMA DO BRASIL NÃO É EDUCAÇÃO!
Carmen Migueles

Pesquisadores da nossa linha de pesquisa, depois de várias análises estatísticas e correlações complexas de varias variáveis comprovam: O problema da competitividade brasileira não é educação. Na série histórica, o aumento dos investimentos em educação não se converteram em competitividade. 
Temos o equivalente a 18% da população Finlandesa com mestrado e doutorado. E o equivalente a 1.5 vezes a população desse país hoje cursando graduação. Esse diminuto país está em 11º lugar no ranking global de inovação. O Brasil está em 69ª posição no mesmo ranking e os brasileiros estão em 22ª – ou seja, o problema não é a qualidade da educação no país, pois os brasileiros saem do Brasil por falta de oportunidades e inovam em outros países. Esse número mostra o tamanho da diáspora de cérebros que promovemos.
Já no ranking global de equidade de gêneros em educação, o Brasil aparece em primeiro lugar. Homens e mulheres no Brasil têm as mesmas oportunidades em relação à educação. Estamos melhores do que os países nórdicos nesse quesito. Mas estamos em 90ª posição global em relação às oportunidades para mulheres no mercado de trabalho.
Países como China, já terceiro lugar no ranking global de inovação e subindo rápido nos ranking de competitividade e produtividade, e Coreia, que ultrapassa a França e aparece em 5º lugar no mesmo ranking, estão muito pior do que o Brasil no ranking de equidade de gêneros em educação e saúde, mas estão no primeiro lugar do mundo em “mulheres na inovação”. Descobriram o óbvio: não adianta educar e depois não pensar no uso estratégico dessa mão de obra para gerar riquezas.  É possível, com gestão estratégica de pessoas, ganhar muito em inovação e depois em produtividade e competitividade gerindo adequadamente seus recursos humanos.
Muitos são os tolos que acreditam que a questão de gênero é mimimi da esquerda. O Forum Economico Mundial e o Banco Mundial analisam esses dados e demonstram: se conseguimos maior paridade entre os gêneros o impacto no PIB Global será de cerca de 12 bilhões de dólares. Há muito dinheiro na mesa. Os Asiáticos descobriram isso. 
Há muito o que se pode fazer gerindo esses fatores. A gestão integrada de ativos intangíveis é fator critico para ganhos de produtividade e competitividade. A cultura organizacional, se levada à serio, deveria gerir e integrar a gestão desses fatores.