segunda-feira, 24 de julho de 2017

O BOPE, a espiritualidade no mundo do trabalho e a necessidade de uma imprensa um pouco mais profunda!

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/07/1901929-bope-abre-templo-evangelico-e-utiliza-versiculos-para-justificar-letalidade.shtml

O BOPE, a espiritualidade e a condição humana
Carmen Migueles

Eu e Marco Tulio Zanini, estudamos o BOPE desde 2011. Escolhemos estudar esse batalhão para compreender como conseguiram constituir equipes de alto desempenho frente a tanta adversidade. É um tema de interesse em gestão pública e somos professores e pesquisadores na área. Em termos de gestão, o BOPE é considerado uma CAO: critical action organization, em inglês, em que qualquer erro pode ser fatal.
Publicamos o nosso primeiro livro sobre o tema em 2014. Escolhemos uma CAO para estudar o papel da confiança em casos extremos. Temos outros artigos acadêmicos sobre o tema.
Acabamos de submeter um paper acadêmico para publicação próxima sobre a questão da espiritualidade no batalhão. Não incluímos esse tema no livro, porque era de tanta sutileza e complexidade que demandava uma analise antropológica mais robusta. E me impressionou a forma leviana com a qual o tema foi tratado na folha de São Paulo.
A questão da espiritualidade existe na tropa. Por uma questão simples: como conviver com a morte, o mal, o crime, a covardia, a injustiça, a tortura de menores por bandidos, a vitimização dos inocentes nas comunidades, uma rotina de trabalho marcada pela violência e pelo risco de vida mantendo a saúde mental? Como lidar com uma rotina tão dura, com tanto risco pessoal e profissional, e perseverar na tarefa? Por que não desistem e mudam de emprego? O que os faz ir para o trabalho todos os dias? Qual é a fonte da sua motivação? Eram algumas das perguntas que buscávamos responder para entender os desafios da gestão pública nessa área.
 Já são 91 policiais mortos. E quem esta nessa profissão tem como rotina ir ao enterro de colegas jovens e ver nesses as viúvas com seus filhos pequenos, agora órfãos. Conhecemos alguns desses. Saem de casa para trabalhar todos os dias, como dizem eles, “sem flores para recebê-los! É só bala”! Vêem o retorno da insegurança e da violência e a desconstrução de muito do que fizeram nos últimos anos. Há não muito tempo atrás, conversamos com a liderança do Batalhão sobre um programa para a preparação do BOPE para paz.... quando sonhávamos que a politica publica de segurança daria certo e a tropa teria apenas uma função de manutenção dessa. Nos surpreende uma matéria de jornal que dá a entender que há algo do tipo “Ceita” se formando no interior da unidade. Que lança uma fagulha de desconfiança de que ali alguns loucos usam a religião para justificar a morte. E atiça o medo e a desconfiança sobre uma tropa que é referencia mundial naquilo que faz e onde pessoas como eu e você trabalham duro para fazer a coisa certa, com um volume enorme de dificuldades e muita falta de apoio.
O símbolo do BOPE nada tem a ver com uma imagem Cristã. Foi concebido pelo coronel Almendola, um dos fundadores da unidade, nos idos anos de 1978, que nos deu uma longa entrevista sobre a razão pela qual era importante ter um símbolo e porque esse símbolo: o espirito de corpo é o que garante que um soldado não deixara o outro ferido no campo de batalha. O sentimento de unidade, de identidade e o senso de missão é o que precisa orientar a ação. Um soldado sozinho é vitima fácil. Uma equipe bem treinada é a espada da lei.  A caveira é um símbolo antigo nas organizações militares. A faca na caveira simboliza vitória sobre a morte. E esta relacionada diretamente ao objetivo de realizar as operações sem nenhuma morte: nem do policial. Nem dos cidadãos no entorno. Nem dos bandidos, que devem ser levados à justiça. Cumprir a lei, para eles, é zelar por esse ideal. O treinamento duro tem por objetivo retomar o território que esta sob o domínio do crime, permitir a ação do Estado e o domínio da lei, e instaurar a paz. Para isso, o controle da agressividade, a busca incessante pela excelência, o treinamento robusto, a busca constante por identificar quem possa manchar esse ideal e afastar do grupo faz parte de esforço continuo. O circulo vermelho é a força da lealdade, que é o que garante a vida de cada um.  As duas garruchas cruzadas são o símbolo da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro. O formato da faca não é referencia à cruz. É uma arma de batalha. Nem o vermelho é uma referência ao sangue de Cristo.
            Sim. Eles rezam. Se sua vida corresse risco diário talvez você também o fizesse. E sim, eles sabem que podem errar. E que quando isso acontece, as consequências podem ser terríveis. É preciso rezar por isso também. É preciso rezar para ter forças e perseverar na luta contra o crime. Para não ser atingido por balas ao longo da rotina diária de trabalho. Para tolerar o volume de maldades que veem diariamente. Para conseguir voltar para cada e ser um pai e um marido normal. E para ir a tanto enterro de colegas de trabalho.
            Agora: nesses 6 anos de estudo no Batalhão, nunca vimos, em nenhuma circunstancia, alguém usar versículos para justificar letalidades. Nunca vimos também a “exclusividade de evangélicos”. Não falamos da espiritualidade de maneira leviana nos nossos escritos. Entendemos, com Viktor Frankl, que a busca do sentido é fundamental para a saúde mental e para dar-lhes força para perseverar em uma profissão que lhes impõe tantos riscos. E entendemos que esse é o caso dos policiais do BOPE. Que como tantos outros estão com suas vidas em risco para defender a nossa.

Trechos do nosso paper, que será publicado em breve:
This is a paper on spirituality at work in an organization embedded in a very specific institutional arrangement. Institutional diversity (Ostron, 2005) matters, especially in the configuration of the context in which spirituality can emerge as a way to grasp reality, impose meaning on experience and shape the way to interact with instable course of social action (Weber, 1968; Eliade, 1992).  Metaphysics is relevant to produce stable references, grounds for cognition, and frames of reference for interpretation of reality and judgement (Douglas, 1966 and 1986). It is even truer in institutional arrangements where the available schemes of thought fail in providing the necessary grounds for decision and action. Besides, spirituality, and the desire to be connected to other spheres can be a way to feel saturated with power (Eliade, 1992, p. 13) and it can be extremely relevant if one’s daily activity deals with life-risking situations and with the proximity to death.
…..The study that gave origin to this paper started with a rather simpler goal. At first, we intended to understand the role of trust and leadership in extreme situations. We chose a Special Forces Unit in search for the elements of informal coordination that are relevant for the modus operandi of organizations that act in sceneries of high complexity and high uncertainty (Zanini, et al. 2013 and 2014).  However, on the course of empirical investigation, we were led to so many unexpected situations, for which our original analytic framework was so obviously inadequate, that we felt compelled to move toward a more in-depth, qualitative dive than we had originally imagined.
…..The research on the motivation to fight crime in Rio by members of BOPE was accomplished with the combination of three methods: ethnography, with participant observation at the headquarter (for safety reasons we were not allowed to accompany the troops in missions), in depth interviews with leaders and retired members, and quantitative analysis (Zanini, et al. 2013a; 2014). The unit has 543 members.
……We call “elements of informal coordination” all tacit solutions of internal integration that are critical for the acceptance of high risk and success in extreme conditions. This is a case study of a CAO (Critical Action Organization). According to Hannah et al. (2009) organizations in this category deal with events of extreme uncertainty and high probability of critical consequences of large magnitude, involving risks to the lives of members and non-members.
 …..This is an extreme case among CAO (Zanini et al. 2013 and 2014), with daily operations under extreme circumstances, in which the lives of agents are constantly under threat and the results in terms of military and civil casualties are comparatively higher. We attempt to understand, in this exceptional case, what led the officers to perform their duties under adverse conditions, and how they organized themselves to do it, both in terms of organizational design as in efforts to enhance effectiveness.
……We investigated BOPE (Batalhão de Operações Especiais, the Battalion of Special Operations) from the Military Police of Rio de Janeiro. According to Decéné (2009), this type of special unit operations was created during the Second World War to use violence in a planned and punctual way to reach better results than those possible by conventional forces. BOPE was created in 1978, inspired by those post-war units, to fight the growing urban violence in Rio de Janeiro. They are organized in smaller, autonomous units, with fewer soldiers and a new combination between information, technology and strategy. This organization is important to increase effectiveness in actions with features of urban guerrilla.   In terms of military organization, these units are designed to be effective alternatives for the growing complexity and uncertainty of the combats, given the risks for civilians, soldiers and criminals. For these purposes, centralized control tends to be inefficient (Spulak, 2007). Shared leadership and autonomy are key to success, but it increases the demand for intangible mechanisms of coordination and reduce the effectiveness of command and control (Zanini et al., 2014). Those units usually have a strong internal cohesion and a strong sense of devotion to a common cause in common (Weber, 1968; Clausewitz, 1979; Storani, 2006; Spulak, 2007; Decéné, 2009; Zanini, 2013). Differently from those units that fight terrorism or guerrilla type wars, that deal with an external enemy, BOPE deals with citizens of the same city, organized and random crime deeply entrenched in slums, where many times the local, poor population, functions as human fences blocking the entry of the police and the state, in general. Their main mission, to deterritorizalize crime, today in control of many areas in the city, is what leads them to the core of a rather chaotic territory, not only geographically, but especially symbolic.  We observed that the notion of enemy in this context and the decision of when and how to act is deeply related to their identity and cultural imaginary about their mission. Their relation to metaphysical reality is the core to their organizational culture.
…..Many studies of this type of organization point to the great importance of first level leadership, with a central role in planning and commanding operations (Storani, 2006, Spulak, 2007, Decéné, 2009). They also argue that shared leadership has a relevant role in internal coordination at those units and that their efficacy depends, significantly, on the respect for the direct leader, on loyalty to peers and the leader, respect and a predisposition to accept command. Weber (1968) and Clausewitz (1979) call attention to the role of charisma and a sense of mission for the internal coordination and military success, to the development of the “spirit of the corps” (generally defined as loyalty and trust in the fellow soldiers and leadership, where one finds strength and inspiration. Clausewitz, 1979), and performance in war.
........ Symbolism: a patron, a totem: the skull - were all mechanisms of controlling what they called “excessive energy” and its dispersive effects. On the one hand, they recognize the importance of searching for the ideal profile of a soldier for this sort of special operation, the extreme rigor in the selection process and the hardship of the training period, in which many times the officers tested the energy and desire of the soldier to remain in this career. On the other hand, they point to the challenge of controlling these men in action. Symbolism, rituals and history are the resources at hand. This is clear to all of those in a leadership position.
………….. Lévi-Strauss (1977) notes that the demand for order, observed both in “primitive” thought as much as in the concern for organizing and typology creation in science, as all other ordering efforts, have in common the fact that they have an eminent aesthetic dimension. Order in thought, in nature and on metaphysics, are both, at the same type, precondition for thinking and an aesthetic demand. Lévi-Strauss quote an indigenous thinker as he expressed this idea in a sentence: “every sacred thing must be in the right place”, an idea that Douglas (1966) somehow embraces later. The idea of “order” as an esthetical dimension, and the cultural effort to order the world as a basis of the capacity to think, connects the process of ordering the world as part of the esthetical experience. The need for order is not a demand of the primitive thought, mas of all thought (Levi-Strauss, 1997, p. 25). The first object of this mode of knowing corresponds to intellectual demands, prior to satisfy any other practical needs. If we fail to impose order to experience, even if it is done only in thought, is as “the entire universe order could be destroyed” (p. 24). The invocations that emerge of these efforts for ordering correspond to the capacity to “proceed safely” (p. 25). The magic thought, is a variation on the theme of the principle of causality. In this case, the difference between science and witchcraft is smaller than a distance observation could suppose.
……….. The understanding of the importance of the symbolic universe and metaphysics for military organization is ancient. Weber (1968, p. 49) points to the fact that leadership in military operations cannot be explained by reason alone. He observes that charismatic authority, necessary in this type of organization, is specifically outside the realm of every-day routine and the profane sphere. According to him, there is a strong element of irrationality in these bonds of loyalty and commitment. It is precisely that what is necessary to be better understood. We wish to understand this “hunger” for effectiveness, the forming elements of this will and the sort of cultural creativity it engenders.  There is a clear search for increasing power over chaos, a search that is oriented towards the improvement of self-discipline and team performance, as well as the capacity to offer resistance to what is perceived as social and institutional disorder.