quinta-feira, 14 de junho de 2018


A sustentabilidade ambiental e a participação feminina no mercado de trabalho: desafios para a prosperidade, competitividade e redução de riscos:

A questão da sustentabilidade ambiental e do suporte às mulheres no mercado de trabalho causaram um debate quente, por vezes com muita agressividade e acusações vagas e confusas sobre a minha possível orientação politica. Me chamaram de social-democrata como se isso fosse ofensa, de esquerdista, além de termos de baixo calão – que apaguei do meu facebook porque ninguém merece!
 Se há uma coisa que respeito, é a diferença de opiniões. Ela é boa na politica. Mas as manifestações agressivas e acusatórias naturalmente escondem outro fenômeno: a desorientação em um mundo complexo, volátil, incerto e ambíguo, por um lado, e o medo que certos “intelectuais” vem propagando, de forma irresponsável, do meu ponto de vista, sobre temas que assombram, sem razão, os eleitores.
Acho que entender a gênese de certas ideias e sua evolução no tempo é bom para formarmos uma opinião.  Vou contar o que vi sobre a evolução da questão da sustentabilidade, outro lado da moeda da ideia de responsabilidade social corporativa.
Eu fui para o Japão em 1985. Era um outro mundo. E outras questões. Fiquei lá por 13 anos, período no qual tive a oportunidade de trabalhar como assessora para assuntos de ciência e tecnologia da embaixada do Brasil em Tóquio.  Não era um “emprego formal”. Era um contrato que a Embaixada fazia com alunos de doutorado para acompanhar os fóruns sobre ciência e tecnologia no Japão e fazer relatórios para facilitar a cooperação internacional nos temas relevantes.
Acompanhei de perto parte dos debates que aconteceram em Kyoto em 1997. A Wikipedia explica o que foi isso: https://pt.wikipedia.org/wiki/Protocolo_de_Quioto. Pude acompanhar Brasileiros por lá e ouvir os relatos de empresas brasileiras sobre o tema.
O mundo ainda vivia a ressaca do acidente de Bophal, na India (https://pt.wikipedia.org/wiki/Desastre_de_Bhopal) e havia um medo crescente de que os ganhos de escala das empresas, somados com o manuseio de insumos e produtos de risco colocasse a vida das pessoas em risco. Como ter certeza que as populações que viviam perto das empresas não corriam riscos? Por lado, especialmente as empresas químicas e petroquímicas estivam pensando nisso, como garantir que sua atuação não causaria a morte ou danos nas regiões em que operavam? Por outro, os governos não se mexiam.
Em 1984 as empresas brasileiras organizadas na Associação Brasileira de Indústrias Químicas (ABIQUIM) trazem para o Brasil o Programa de Atuação Responsável criado no Canadá para melhorar a imagem das indústrias químicas por meio de atuação preventiva nas áreas de saúde, segurança e meio ambiente. A ideia era de que as empresas não precisam esperar que os governos atuassem e poderiam se autorregular mesmo antes da existência de legislação especifica. Muitas empresas brasileiras começaram, por livre iniciativa, a aderir ao programa.
Essas iniciativas deram origem a estudos que levaram à criação de normas industriais, consolidadas nas normas ISO. Surgem várias certificações, como a ISO 14.000, que trata de meio ambiente, e a ISO 55000, que trata do cuidado com as instalações e outros. As empresas químicas e petroquímicas brasileiras aderiram a implantaram essas normas, que criou um circulo virtuoso de aprimoramento que levou a redução de desperdícios e a inovações em processos industriais que retornaram na forma de redução de custos.
Mas imagens como a de Cubatão (em que o ar era irrespirável naquela época - https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39204054 ) e do Rio Tietê eram assustadoras.
A questão da chuva acida no Japão causada pela poluição na China ( https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0166046206000809 ) , com a morte de arvores e danos para a agricultura, sinalizavam a possibilidade de conflitos internacionais.
As empresas apontam para vários problemas de ação coletiva derivadas disso. Se uma empresa poluía rio acima, a outra tinha custos quase impagáveis para limpar e ter acesso à água rio abaixo. Se uma empresa não tratava seus dejetos e afluentes, os problemas de saúde publica decorrentes demandavam aumento de impostos para cuidar das consequências. Funcionários doentes em Cubatão tinham maior absenteísmo. O custo dos planos de saúde para os dependentes ia ficando cada vez mais caro. Fora os óbvios problemas éticos.
Conflitos com essas questões prometiam piorar o ambiente de negócios.  As empresas e associações industriais temiam não só pela desorganização que isso geraria, mas pelos óbvios custos não estimados de correção. Como planejar os investimentos no futuro? Como colocar bilhões de dólares em indústrias químicas e petroquímicas com esse tipo de risco? A prosperidade estava em risco.
Um órgão pouco conhecido no Brasil: A UNU. Universidade das Nações Unidas, que fica em Tóquio, coordenava estudos sobre esses temas. Ela é uma meta universidade que coordena linhas de pesquisa em universidades de todo o mundo para gerar bases cientificas para decisões informadas. Na época que eu estava no Japão e na época do acordo de Kyoto, o reitor da UNU era o professor Gurgulino (https://pt.wikipedia.org/wiki/Heitor_Gurgulino_de_Souza) – mostrando a liderança no Brasil nas pesquisas que levaram às recomendações atuais.
A questão era: como valorar o meio ambiente para poder precificar os danos e portanto dar segurança aos investimentos?
Como garantir que aqueles que não fazem a sua parte não destruam tudo que os outros estão fazendo?
Surgem os estudos sobre bens não rivais e não excludentes: como ar limpo e segurança pública, que por sua natureza não podem ser delegados ao mercado. Segurança e ar limpo tem a seguinte característica: quanto mais tiver melhor para todos. Mas o individuo tem incentivo para sujar. É mais barato e mais lucrativo no curto prazo. Como resolver esse dilema? As empresas lideravam os debates nessa direção. O mundo acadêmico e a UNU vieram depois. O Pacto Global da ONU é o produto desse longo processo.
Isso só se agravou com outros acidentes. No Brasil houve grande acidentes com a Petrobras. O adernamento da P-36, o derramamento de óleo na Baia de Guanabara e no rio Paraná. Enormes esforços de ganhos de produtividade eram perdidos nas multas e indenizações pelos danos causados. O acidente da British Petroleum no Golfo do México gera gigantescos prejuízos para seus acionistas e para todos em volta.  
A dissociação entre propriedade e gestão, existente nas grandes multinacionais, vinha criando riscos impensáveis para os acionistas. O problema da assimetria de interesses entre agente (executivo) e principal (acionista) começa a preocupar especialistas e pesquisadores. Para ganhar mais bônus de curto prazo, o executivo poderia decidir investir menos em manutenção e meio ambiente – gerando riscos e prejuízos enormes para os acionistas, que não estavam dentro da empresa para ver e opinar. Como criar modelos de governança empresarial que reduzam esse problema? Ou ainda: como comprovar, financeiramente, para todos os acionistas, a relevância de investir em prevenção?
Freeman propõe uma estratégia de responsabilidade social corporativa para endereçar essas questões (https://en.wikipedia.org/wiki/R._Edward_Freeman). Friedman (https://en.wikipedia.org/wiki/Friedman_doctrine) critica, afirmando que a responsabilidade da empresa era retornar para o acionista. Uma grande parte das empresas aderem a primeira proposta. Algumas advogam pela segunda proposta, mas não conseguem convencer os investidores do mercado de capitais, pois não gerenciam os riscos ambientais e especialmente os fundos de pensão, interessados em rentabilidade de longo prazo, não bancam os riscos.
Do mesmo modo a questão de gênero e diversidade. É do interesse dos acionistas de empresas que competem em mercados inovadores que essas tenham o maior número de talentos nas suas organizações. A IBM tem o programa de diversidade mais antigo do mundo: desde 1910. E com isso traz os melhores talentos das melhores universidades para seus quadros. Todos os estudos mostram que diversidade tem forte correlação com inovação. No Brasil, as mulheres são 59,9% dos egressos de cursos superiores (fonte: INEP), 54,20% dos mestres e 52,10% dos doutores. São 45.5% dos docentes de nível superior, mas responsáveis por 49% dos artigos científicos escritos no Brasil em 2017. Mas na dinâmica de inovação brasileira não há mulheres. Hoje se faz seleção adversa: todos competem por homens brancos. Logo, há menos talentos nesse grupo disponíveis para contratação. Então para evitar mulheres, contratam-se homens com pior formação e desempenho. Para que? Para evitar a licença maternidade. Mas quem faz isso? Aquele que seleciona para a sua equipe, focado nas tarefas de curto prazo e sem visão do impacto disso na estratégia da empresa. A IBM resolveu isso colocando como item de remuneração variável para seus executivos estar no topo do ranking “Melhores empresas para as mães trabalharem”. O resultado é expressivo em termos de inovação. Logo, não são as “empresas” que discriminam. São pessoas dentro delas. De forma contraria aos interesses dos acionistas. Mas esses não estão na gestão. Então são necessários programas e mecanismos para auferir se os processos são meritocráticos e não excluem as mães. Mas o fato é que excluem. As empresas estão implantando programas de diversidade e indicadores de diversidade por essa razão. Os acionistas querem ter certeza de que os executivos estão fazendo a coisa certa para produzir valor sustentável no médio e longo prazos. Mas no debate politico muitos acham que essa é uma questão da esquerda. Há muita dificuldade para pensar em jogo ganha-ganha no Brasil. Porque, para isso, é preciso sair das redes sociais e parar para tentar entender o que está acontecendo de fato.....




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Para ouvir a voz dos que veem saídas....

Para ouvir a voz daqueles que veem saídas….
Enquanto discutimos de forma irritada a questão de direita X esquerda, de forma antiga, pouco informada e emocional, muitos estudos mostram que democracias maduras são fruto de cultura cívica. Cultura cívica brota onde há menos heterogeneidade e menos desigualdade. Mas há aqui um desafio para cada um de nós: a capacidade de encontrar convergências, pontos de união, pautas comuns é o que reduz heterogeneidade e desigualdade – e gera democracias maduras e desenvolvimento porque aumenta a capacidade de ter diálogos produtivos e resolver problemas complexos.
A chave para evoluir, portanto, seria a capacidade de gerar diálogos positivos, que busquem pontos de convergência. Sociedades autoritárias, com histórico de ditaduras e cultura geradora de conflitos e desigualdade tendem a produzir heterogeneidade porque produzem conflito. Quanto mais autoindulgência e autocomplacência uma cultura gera, mais propensão ao autoritarismo ela produz.
Resiliência, respeito, empatia e autonomia reduzem a propensão ao autoritarismo! E faz isso porque aumenta a capacidade de cooperação e colaboração. Não é o contrário. A nossa busca por soluções autoritárias hoje prova isso! Há gente à cata de um ditador para resolver os problemas!
Dá para brincar com essas comparações no site do Hofstede: aqui dá para colocar o nome do país e constatar que quando maior a propensão autoritária maior a autoindulgência. Quem acusa, ataca e polariza no debate político impede diálogos produtivos. A irritação fora de contexto produz heterogeneidade e dificuldade de evoluir. Aqueles que entram no post dos outros atacando a esmo, são os verdadeiros inimigos da evolução política. Os agressivos criam impossibilidades.
https://www.hofstede-insights.com/product/compare-countries/
Por quê? Em uma breve historinha....
Uma menininha de oito anos pergunta para a mãe na mesa do almoço: mãe, o que é “virgem”? A mãe olha para o pai em pânico..... o que responder? Imediatamente diz: tá vendo? Isso é o que aprendem na escola..... o mundo está cada vez mais precoce! Acho isso um absurdo.... A menininha insiste: Mãe, o que é “virgem”? a mãe acaba por responder, de forma atabalhoada: - “é aquilo que nunca foi usado!”. A menina então pergunta: - E “extra virgem”? Estava lendo o rotulo do azeite de oliva.....
Ela não respondeu à pergunta. Mas ao seu medo! Todo aquele que ataca dessa forma, fala mal se si!
A falta de empatia, a falta de virtudes como paciência para ouvir as coisas dentro do contexto, a falta de coragem para enfrentar a vida como ela é (um dia a menininha de fato vai querer saber disso, e não podemos ser como nossas bisavós que descobriam por si porque não podiam perguntar), a falta de resiliência para perseverar frente às adversidades é o que impede que lideranças que nos representem possam emergir. Pré-julgamos, não dialogamos, atacamos a qualquer fragmento de informação que nos produza desconforto, nos achamos no direito de desconfiar a priori. Por fraqueza! Por causa os nossos medos, das nossas raivas, do nosso sentimento infantil de ter sido traídos por alguém que deveria ter resolvido todos os nossos problemas. E produzimos o contexto de impossibilidade que vivemos hoje. Nenhum líder será nossa imagem e semelhança. Ninguém é responsável por produzir conforto emocional em todos os outros. Sociedades mais prósperas tem mais liderança compartilhada. Líderes em democracias maduras representam a vontade da maioria. Não as fraquezas. Precisamos que cada um pratique suas virtudes. 2018 será o ano em que nosso caráter, como sociedade e civilização, estará à prova.
Se votarmos em um ditador, perderemos para nós mesmos. Mas o único jeito disso não acontecer, é tendo cada um trabalhando na sua zona de influência, expandindo consciências, ponderando, reconhecendo avanços e apontando para as inúmeras possibilidades que temos na nossa frente.
Quem só vê coisa errada, quem só vê retrocesso, quem só aponta erros está precisando examinar o próprio coração. Há muita coisa boa a ser valorizada e muitos ganhos em olhar para as oportunidades. Vamos silenciar os fatalistas, os pessimistas, os niilistas, os agressivos e os preguiçosos para que a voz dos que falam de possibilidades possa ser ouvida? O Brasil pode sair muito melhor e mais forte dessa crise. Só depende do quanto seremos capazes de transforma-la em oportunidade de mudança.
Estou pensando em debater esse tema na casa de Araras (www.symballein.eco.br). Alguém topa?

sábado, 6 de janeiro de 2018

O papel do Estado na Saúde, na Educação e na segurança e a liberdade de mercado: pautas compatíveis.

Muitos jovens hoje me perguntam se a iniciativa privada não poderia cuidar da educação e da saúde. Na teoria sem dúvida que poderia. Mas na prática não há como em um país como o nosso, de passado colonial recente, um dos últimos países do mundo a abolir oficialmente a escravidão, com forte desigualdade e com uma explosão de crescimento da década de 1950 em diante. E entender isso faz parte da diferença entre ser um partido idealista, utópico e mais orientado pela ideologia e um partido pragmático, orientado para resolver os problemas concretos de uma sociedade complexa como a nossa.
Para começar a conversa é preciso notar que: 1) Nada, mas nada mesmo, impede, hoje no Brasil o surgimento de mais escolas privadas. Há burocracia estatal. Sem dúvida. Mas abrem-se escolas todos os dias. São muitas. De diferentes níveis de qualidade e de diferentes orientações pedagógicas. Mas faltam vagas nas boas creches e escolas do Rio. E das outras cidades do Brasil também. No campo nem se fala. Se há demanda, porque não há oferta? Essa é uma questão interessante. Qualquer um que tenha filho em idade escolar e procure uma excelente escola no Rio vai descobrir que faltam vagas. Há filas de espera em todas. Mesmo nas que custam R$ 4.000,00 ou R$5.000,00 de mensalidade. Faltam vagas nas creches. Nas mais caras também. Onde está a oferta privada de vagas? Porque ela não cresce? Há uma série de razões para isso. Dentre elas gargalos de gestão e escassez de mão-de-obra qualificada. Sim! Faltam professores, especialmente de português e matemática. Em todo o Brasil. Faltam coordenadores e orientadores pedagógicos bem formados. Faltam bons diretores escolares. Na rede privada e na rede pública, é bom dizer. Teoricamente se faltam professores mais gente estudaria para essa profissão. Mas nossa sociedade não valoriza esse oficio. Os salários não são bons. E onde são bons, a estabilidade é discutível e essa não é uma boa profissão se você quer passar a vida trocando de emprego. É sempre bom notar que nos comparativos internacionais, como no PISA da OCDE, o resultado médio das escolas privadas brasileiras é menor, em termos de desempenho dos alunos, do que a média das escolas públicas no teste PISA.  
Nos comparativos internacionais quatro países enfrentam problemas similares em relação à educação. Brasil, Rússia, Índia e China. Esses países tiveram uma explosão populacional muito grande no pós-guerra, especialmente dentre os cidadãos de menor renda. Havia um quadro de miséria crônica que começa a ceder nos anos 80 por uma confluência de fatores. Alguns independente de politica publica. Aqui no nosso caso: o declino da taxa de fecundidade. Até a década de 50 a media brasileira eram de 5 filhos por mulher. Hoje estamos abaixo da taxa de reposição: algo em torno de 1,8. Famílias com menos filhos conseguem cuidar melhor daqueles que nascem e a demanda por educação tende a se estabilizar. Mas os números ainda são muito grandes.
O grande desafio desses países foi o crescimento desordenado. Em países onde houve um crescimento mais organicamente equilibrado, o numero de professores, médicos e outras profissões crescia junto com a população.
Nos BRICs, a partir dos anos 90 e com forte aceleração após 2000, a nova classe C e as classes D e E, com mais acesso à informação, começam a demandar fortemente educação e saúde. Mas não havia infraestrutura, recursos financeiros e humanos para dar conta disso. Houve um forte esforço de universalização da educação, mas com falta de recursos o salario dos professores e as condições de ensino não eram boas. O que aconteceu foi uma enorme desvalorização da atividade dos professores e a redução da atratividade dessas carreiras para os mais talentosos. Hoje, temos um numero insuficiente de professores, especialmente de português e matemática, que é crônico em todo o país. Assim como temos falta de médicos. Os professores que se formam escolhem a carreira muitas vezes pela estabilidade do vinculo com o estado e aceitam um salario baixo porque mesmo esse é uma ascensão social. Ou seja, os professores não trazem uma boa educação de berço. Normalmente vem de famílias de baixa renda onde educação não é valor. Não sabem o que é viver em uma sociedade onde educação é valor e muitos não conhecem o que é um professor de ensino fundamental de qualidade. Há muitos heróis e muita gente fazendo coisa boa. É necessário organizar a cooperação para que haja um processo continuo de aprendizagem e compartilhamento de melhores práticas.

Como consequência do baixo salario, muitos professores têm duplo ou triplo vinculo empregatício. Trabalham em várias escolas. Com isso, não conseguem conhecer adequadamente os alunos nem criar estratégias para garantir a aprendizagem. Um aluno de ensino fundamental precisa da “professora”: aprende em uma relação de afeto. Não tem maturidade nem autonomia para aprender sem apoio. Não é uma questão só de conteúdo, mas de presença e atenção do professor. E a escola não funciona bem como apoio ao processo de aprendizagem infantil. Dai o analfabetismo funcional. O desenvolvimento das habilidades cognitivas do educando se dá por meio da interação e da brincadeira até o fim do ciclo fundamental. O professor precisa estar ali estimulando de forma ativa e com bons métodos e recursos. Mas esse tipo de capacitação de professores custa caro. Na Finlândia, que é o país de referencia hoje no mundo e o 1º lugar no PISA, os professores do ensino fundamental tem mestrado na área. Para nós, há um fosso enorme para ultrapassar para chegar lá.
O Brasil vem investindo seriamente em formação de gente qualificada. O número de mestres e doutores cresceu muito desde o começo do milênio. Mas há ainda muito esforço pela frente. Precisamos melhorar a qualidade da pesquisa aplicada em educação. Precisamos melhorar a compreensão das complexidades regionais e desenvolver soluções que funcionem em diferentes contextos. As universidades podem e de alguma forma fazem isso. Mas fazem com recursos públicos de pesquisa desperdiçados por problemas de foco. As parcerias com as empresas privadas ajudariam muito aqui. E pode-se dizer: Mas a iniciativa privada poderia fazer isso! Poderia. Mas não faz. O investimento privado em pesquisa no Brasil é muito, mas muito pequeno mesmo. Na Coréia há 4 dólares de recursos privados para cada dólar de recurso público em pesquisa. Há recursos subsidiados para pesquisa pelo setor privado na FINEP. Estamos em 69º lugar no mundo no ranking de inovação. Mas somos o 13º maior produtor de papers científicos do mundo. Produz-se ciência. Mas ela não vira inovação, pois para isso seria necessário investimento privado. E por que a iniciativa privada não investe? As causas são muitas. E complexas. Mas de modo geral por uma confluência entre três fatores: uma matriz econômica fortemente calcada na produção de commodities, onde inovação conta menos, e um cenário econômico de forte incerteza e baixa confiança, que é um desestímulo. Mas não há barreiras reais. Há aqueles que investem. Mas está longe de ser o ideal. Há muito esforço coordenado que precisa ser feito para melhorar os resultados nessas áreas.

O aumento da liberdade de mercado e a redução dos impostos reduziria a incerteza e aumentaria a confiança. Isso geraria maior tranquilidade para investir. Os ganhos de competitividade e produtividade aumentariam os retornos para todos. Mas em termos de educação, há desafios complexos e sistêmicos que precisam ser geridos de forma relativamente integrada. O custo de deixar para a iniciativa privada seria de algumas gerações sem educação. No longo prazo, estaríamos todos mais analfabetos.
Em termos de saúde pública a situação é ainda mais dramática. Falta oferta que caiba no bolso das parcelas mais pobres da população. Faltam médicos na população brasileira. O custo de uma faculdade de medicina é altíssimo. Mesmo com financiamento público, a maior parte da população brasileira não teria como cursar esse curso. Brincar de “menos estado” aqui pode ser uma carnificina! Ou a pessoa que defende isso é muito jovem e não conhece a complexidade da questão, ou suas ideias valem mais do que vidas humanas.
Sem dúvidas que o sistema é ruim. Assim como na educação, sofremos dos mesmos desafios que outros BRICs. Mas do ponto de vista ético e humano não dá para desistir dessa via. Falta renda e falta oferta qualificada de serviços médicos. E aqui, literalmente, no longo prazo, estaremos mortos.
Na segurança o investimento público é fundamental, pois é ele que garante o domínio da lei. O império das leis e a liberdade dependeram, desde sempre, da concentração do direito ao uso da força nas mãos do Estado. Só o Estado pode prender, punir e julgar. Dai a importância de manter uma forte vigilância dos cidadãos sobre o Estado, da repartição e equilíbrio entre os poderes e da imprensa livre. Liberdade sem o império das leis é a lei do mais forte. A liberdade de ir e vir, a segurança para comerciar, para trabalhar e juntar propriedade sempre dependeu da existência de instituições que garantam o direito à propriedade e os contratos. O mercado livre não é a lei da selva. A selva não é o mercado. O mercado funciona onde as instituições funcionam. Onde as leis valem.
A liberdade é sedutora. A ausência da autoridade, quando somos jovens, é um sonho. Mas um partido politico maduro precisa ser responsável por essas questões e saber que vivemos em um país em que mais de 40 milhões de pessoas estão nas classes D e E, e que essas pessoas não estão dispostas a votar nas aventuras e nas promessas de uma liberdade distante.

Liberdade de mercado, para gerar riquezas, e qualidade em gestão pública, para avançar nessas três áreas centrais, não é apenas uma questão pragmática. É uma questão ética. É um compromisso com cidadãos que fazem parte da mesma sociedade e que não podem pagar a conta que a adesão a ideologias à priori lhes colocaria.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Sobre a liberdade, a coragem e as virtudes necessárias para fazer a coisa certa. Pensando o que precisamos para travar o bom combate.

Escrevo esse texto depois de uma semana com alguns ataques a um post que fiz sobre a minha participação em um debate promovido por um movimento chamado “Virada Política” na sede da ONG Viva Rio. Digo que foram ataques, e não criticas, porque a critica é uma disciplina intelectual que pressupõe analise, compreensão da questão e racionalidade. E não foi isso o que aconteceu. Foram acusações a esmo. Irritadiças. Agressivas.....ataques à pessoa, e não às ideias, ao propósito ou à intenção.
Em um desses comentários aparece uma frase que ficou martelando na minha cabeça. Uma frase grosseira, machista, acusativa que dizia: tenha culhão, Carmen Migueles! O uso desse termo, que denota uma parte da anatomia masculina em linguagem chula, quer significar coragem.  Mas assim como o termo, a coragem que se demanda aqui é da agressividade descontrolada. Da capacidade de partir para o ataque a partir de um sentimento desgovernado. É regida pela testosterona, não pela consciência.
A primeira questão que me veio à mente foi: essa não é a coragem verdadeira, a que precisamos ter para fazer a coisa certa nesse momento, e não é preciso ter essa parte da anatomia para ter coragem com “C” maiúsculo, a coragem como virtude do espírito, a coragem para combater o bom combate e dizer “não” às pressões dos aparentes aliados que enraivecidos com o que a politica fez conosco clamam por sangue e vingança!
 Outra coisa que me veio à mente foi uma lição preciosa que aprendi nos meus 13 anos de Japão, onde os conhecimentos acumulados pelo Bushidou, ou “caminho do guerreiro” , fazem parte daquilo que os Japoneses chamam de responsabilidade, impossível sem o autocontrole, sem a consciência do impacto das próprias ações no conjunto e no contexto, sem a capacidade de se responsabilizar pelo futuro que se quer construir, sem paciência e sem resiliência. No meio da crise, é importante buscar o controle da mente, o controle das emoções, para encontrar saídas. É isso que nos faria aproveitar a crise como oportunidade. A agressividade, a guerra de todos contra todos, seria o oposto disso. Gastaríamos o que temos de mais precioso: nosso tempo, nossa energia e nossa vontade, empreendendo uma luta onde todos perdem. Onde não há vencedores. Onde não há possibilidade de vitória.
Temos uma sociedade com muitos problemas. Com muitas dores e muitas opressões. Temos instituições frágeis e muito imperfeitas, resultado da história de colônia de exploração que nos trouxe até aqui.  Há uma enorme distancia entre o Estado e a Sociedade. Somos o país do mundo com a menor propensão a confiar, de acordo com pesquisas comparativas internacionais. Se não melhorarmos a coordenação horizontal, jamais corrigiremos o rumo da politica nacional, pois sem organização da sociedade civil o nosso Estado é facilmente apropriado por oportunistas em todas as suas esferas. Não há saída sem isso. Nem à direita e nem à esquerda. Ponto!
Todos os países com essas características têm problemas endêmicos de corrupção. Tentar evitar a corrução via mecanismos de controle tem um custo gigantesco, aumenta o risco e a dificuldade das pessoas honestas fazerem a coisa certa e é ineficaz. A única forma eficaz de combater a corrupção é via aprimoramento da governança. E essa depende de participação cívica. A participação cívica pressupõe civilidade. A civilidade depende do diálogo.
 A nossa capacidade de resolver tantos problemas complexos e sistêmicos depende da nossa capacidade de cooperação, de coordenação e de alinhamento. Depende da nossa capacidade de combater o narcisismo das pequenas diferenças, o foco em brigar com pessoas por questões menores, e centrar nossos esforços no aprimoramento da nossa democracia e das instituições.
Muitos se sentem traídos! Muitos dos conservadores ou dos “direitistas de plantão” votaram no PT no passado. Votaram no Lula. Traídos e enganados se voltaram contra a esquerda como o cônjuge traído que passa a odiar seu ex. Acusam aqueles que acham que o foco na capacidade de combater a desigualdade deve preponderar sobre a o foco na geração de riquezas como se esses fossem sócios, partícipes interessados, no mal que o Estado apropriado nos causou. Não conseguem ver nesses concidadãos pares igualmente perdidos na traição que nos foi imputada, mas olhando para os problemas por outro ângulo. Perdem foco na humanidade que nos é comum. Fiéis agora às ideologias politicas do passado, usam autores como bíblias sagradas e sem olhar para os desafios reais, concretos do presente, não enxergam alternativas a não ser a lealdade às ideias ultrapassadas tanto da direita quanto da esquerda.  Transformaram a politica nas torcidas organizadas do futebol. Trouxeram nosso descontrole latino para o centro dos debates.
Os desafios do século XXI não podem ser pensados pelas dicotomias políticas do século XIX. A sociedade de hoje não é igual àquela que esses pensadores analisavam. E eles são só seres humanos como nós: que limitados ao seu contexto histórico, pensaram a sociedade em que viviam. Era impossível para eles antecipar o surgimento da sociedade do conhecimento com as novas interdependências que essa demanda. Era-lhes impossível imaginar o surgimento e o crescimento de sociedades de massa tão gigantescas e com tantas diferenças culturais, étnicas e sociais no seu interior. O Estado nacional no qual viveram pretendia ser igual em termos de valores e cultura. Todos os estudos desse tempo sobre o Estado Nacional acreditava que em um território habitava uma nação, entendida como um povo, com tradições e história comuns. A politica como vontade da maioria partia do pressuposto de que as pessoas concordavam sobre todo o resto e deliberavam sobre alternativas para a gestão da coisa pública. Não eram sociedades de milhões de pessoas, das mais diferentes origens, convivendo em um território e buscando formas de cooperar em meio às diferenças. Direita e esquerda.... nossa! Como isso é inadequado para os desafios que enfrentamos! Como isso reduz o problema de forma inadequada! Como isso nos rouba das enormes oportunidades que essa riqueza nos traz!
Eu nunca votei no Lula e no PT. E não o fiz porque discordo dos fundamentos do pensamento de Marx e suas implicações. Discordo ainda mais das distorções produzidas sobre o seu pensamento pelos autores Russos. Mas nem por isso preciso escolher cegamente seguir os autores que lhe ofereciam oposição no passado. Entre um e outro, não preciso escolher nenhum. Posso olhar para os desafios das democracias imaturas e emergentes na América Latina com um olhar menos contaminado por soluções pensadas em outros contextos. É claro que esses autores fornecem alguns conceitos e marcos analíticos interessantes, mas absolutamente insuficientes para o que vivemos hoje. Posso olhar para o resultado de um passado colonial recente e os desafios que esse nos coloca sem ter que buscar saídas em autores europeus de sociedades muito menores e mais iguais. Mas acho a discordância saudável. Democracias saudáveis precisam de oposição. Não tenho problema com quem pensa diferente. E  porque se acredito na liberdade, não posso querer combater a diferença, a variedade de opiniões e pontos de vista e querer a homogeneidade dos iguais, que me daria um conforto e uma segurança imaginaria, apenas possível na casa de um pai responsável e provedor... mas esse é o lugar infantilizado no qual se permanecermos elegeremos um ditador.....  Se acredito nas minhas ideias e nos meus concidadãos, devo acreditar que com diálogos conseguiremos cooperar.  Se não acredito, não sou liberal. Não sou democrata. Sou tudo aquilo que critico no outro.
 Brigar em grupo é coisa de vândalos agrupados em torcidas organizadas. Não de cidadãos participando da politica. Há a falsa sensação de segurança de pertencer a um grupo de iguais com a vontade de projetar todas as frustrações da vida na agressão ao outro. O autoconhecimento, o autocontrole, o autoconhecimento impediria isso. A agressão é coisa dos fracos. E precisamos, e podemos, ser fortes.
Lao-Tsé, Filósofo chinês que viveu em torno de 1300 anos antes de Cristo e que escreveu “O caminho do perfeito”, uma das obras centrais do Taoísmo dizia: o forte controla o outro. O poderoso controla a si mesmo. Esse entendimento, central nas artes marciais, é estruturante das virtudes, da coragem entre elas. O bom combate se trava assim.
Durante nosso trabalho de pesquisa no BOPE, que deu origem ao nosso livro “A Ponta da Lança” e outros artigos acadêmicos, ouvi, muitas vezes, sobre a importância do controle da agressividade como fundamental para ser membro da tropa, cujo objetivo, de buscar a vitória sobre a morte, está bem expresso no símbolo da unidade, que é a faca sobre a caveira.  Buscar a desterritorialização do crime e a libertação dos cativos que vivem sob a sua opressão pressupõe a disciplina pessoal, o autocontrole e o foco no objetivo: restaurar o domínio da lei em todo o território, estendendo o direito à paz a todos os cidadãos. O que mais me impressionou em todas as visitas à unidade foi a educação, a gentileza e o foco dos soldados. Confirmando que se você é forte, e fortemente armado, mas fiel aos seus objetivos, você se impõe uma forte disciplina pessoal sem a qual não haveria diferença entre o soldado e o criminoso.
O momento nos demanda virtudes. Nos demanda paciência, resiliência, compaixão. Nos demanda foco nas possibilidades e oportunidades. Nos demanda esforços para pensar em projetos que resolvam muitos dos nossos desafios estruturais. E nos demanda coragem. Coragem para combater a agressividade descontrolada, que é o caminho mais certo para colocar tudo a perder. Coragem para acreditar em saídas possíveis. Vontade e disposição para busca-las.
O pessimista, o autoritário, é antes de tudo um preguiçoso: se não acredita em nada não precisa tentar. Se não acredita em ninguém não precisa dialogar. Vota em um ditador qualquer e reza para que ele resolva todos os seus problemas.
Nessa hora é preciso inteligência para tentar não fazer opções equivocadas. Racionalidade para olhar para os dados e fatos. E consciência para compreender e enxergar os nevoeiros do presente e buscar bússolas para nos levar aonde queremos ir.  Se acredito nas minhas ideias e no valor delas, não preciso temer falar sobre elas para quem pensa diferente. Se construí solidamente o meu pensamento, sobre o estudo e sobre valores corretos, não há razão para não acreditar que pessoas racionais e bem-intencionadas não seriam influenciadas por elas. Como estudei, sei que não sei tudo e que não seria possível saber, conheço o poder das ideias e das trocas. E posso ouvir com abertura, pois sei o quanto ainda há por aprender, mas sei que não vou me perder por caminhos que não gostaria de percorrer.
Decidi não concorrer em 2018. Não por falta de coragem. Não por falta de vontade. Não apenas pelas dificuldades da minha vida pessoal. Mas porque pude ver, e sentir, que a posição de quem concorre hoje é terrível: ter que buscar votos para poder se eleger e fazer o que acredita ser necessário no meio de oposições emocionais e descontroladas te obriga a aceitar o inaceitável. A tentar dialogar no meio do caos e da gritaria. Abrir mão dos seus princípios e da razão e se torcer às demandas de acusadores descontrolados, mimados, cedendo à irracionalidade na politica. Acho que o meu lugar nesse momento é fora desse ringue. Para ser politicamente orientada para o bom combate não posso estar na se posição de tentar convencer alguém que não quer dialogo e que quer soluções fáceis e simplórias para problemas extremamente complexos a votar em mim. Fora da busca por votos posso escrever um texto desses e tentar chamar as pessoas à razão.
E não tenho receio em afirmar que aquele que agride e ataca, que julga quem não conhece, que é leal a ideias que não passam pelo crivo da razão e não resistem a analise de dados e fatos está no grupo daqueles que esta fechando as oportunidades de construirmos um pais melhor a partir dessa crise. A intolerância é um veneno. E não posso querer participar da construção de futuro sem denunciar esse fato! Pois estamos chocando os ovos das serpentes com esse comportamento e o resultado disso não pode ser bom! Sem concorrer posso falar sobre isso, alertar sobre esses riscos. E é nesse lugar que quero estar nas eleições de 2018. No lugar de poder chamar meus concidadãos para o exercício do verdadeiro poder: aquele que brota do dialogo e da razão.  Se eu estiver disputando cargos nesse cenário, teria que sair desse lugar. Mas é justamente aqui que desejo estar! E há vagas vazias esperando que você também se alie a essa difícil missão!


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Democracia, liberdade e interdependência dependem da nossa capacidade de dialogar. Seus inimigos são os que não dialogam.


Democracia, liberdade e interdependência dependem da nossa capacidade de dialogar. Seus inimigos são os que não dialogam.

Conta-se uma história, e já não sei quem conta e nem onde a ouvi, que um grupo de sábios, com os olhos vendados, tocavam um elefante com a mão e tentavam descreve-lo. Havia os que tocavam a tromba. Os que tocavam o rabo. Os que tocavam as pernas e outros que tocavam seu corpo pesado e gigantesco. Com venda nos olhos conseguiam enxergar, através da imaginação, apenas aquela parte em que as mãos alcançavam. Os que tocavam a tromba, o rabo e as pernas engajaram-se em fortes debates sobre a grossura do animal. O que tocava a tromba e o que tocava o rabo perceberam que tinham “visões de mundo” semelhantes. E criaram uma tribo. Aquele que tocava a perna, grossa o suficiente para não se confundir com a tromba e o rabo, mas fina o suficiente para não se confundir com o tronco, ficava perdido tentando compreender as diferenças que os dois outros grupos gritavam ser óbvias. Isolado no centro, hora concordava com um lado, hora concordava com o outro, mas via que as discordâncias eram de certa forma irreconciliáveis.
Penso nas minhas aulas de história na faculdade onde falávamos sobre quantos séculos o ser humano precisou conviver com a violência para reconhecer o valor da alteridade. Como foram longos e dolorosos os percursos intelectuais e filosóficos para que pudéssemos viver em paz com os vizinhos.... Milênios foram necessários para reconhecermos que o diferente não era bárbaro e não merecia nem a morte nem a escravidão. Que eram só diferentes e que, mesmo assim, as diferenças, se prestássemos atenção, eram muito menores do que as semelhanças.
Como os sábios que tocam o elefante não conseguiam perceber que eram humanos em condições muito semelhantes, vendo a partir de perspectivas diferentes uma mesma realidade.
Penso em quantos séculos e quantos sábios, educadores e filósofos foram necessários para nos alertar sobre o papel da razão, da perspectiva e das emoções na formação dos nossos modelos mentais. Todos humanos, com informação imperfeita, olhando o mundo por uma perspectiva limitada e fortemente movido pelas próprias emoções. Olho para nós mesmos hoje.... Como, movidos por emoções, facilmente optamos pelo caminho fácil da volatilidade emocional e parecemos dispostos a jogar toda essa história para fazer com que se imponha a nossa visão de mundo…. Muitos falam sobre o papel da liberdade. Concordo com isso. É difícil pensar na felicidade sem liberdade. Mas não há liberdade humana sem responsabilidade. As crianças e os loucos não são livres.  A liberdade é um longo exercício, que só se completa com a responsabilidade, o autocontrole e o cuidado com o impacto das suas ações na sociedade. Não é possível defender a liberdade sem a consciência do impacto do próprio papel e das próprias ações no comportamento dos outros. Não é possível defender a liberdade para si e não para todos. E não é possível defender a liberdade sem defender a lei. Não há liberdade no estado da natureza. Não há liberdade no caos. A liberdade é produto da interdependência, que ao mesmo tempo a limita e a possibilita. A liberdade humana é situada e é tão maior quanto mais responsáveis somos. Autonomia significa auto + nomos= a capacidade de dar a si mesmo a lei e participar na sua elaboração e evolução. Diálogo com empatia são fundamentais para isso. Controle das emoções, a busca pela razão e escuta ativa são o caminho. É óbvio. Mas não custa relembrar.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Incerteza, radicalismo e lideranças narcisistas

Ao longo da história houve inúmeros momentos em que o aumento da incerteza (do contexto, dos cenários, da economia) favoreceu o crescimento de lideranças narcisistas. Esses líderes têm impacto negativo nas competências de outras pessoas que o cercam e são facilmente confundidos com lideranças carismáticas. Nas organizações privadas eles têm impacto negativo no desempenho. Na área pública eles têm impacto negativo no desenvolvimento das instituições e na democracia. O narcisista é aquele que demonstra confiança suprema em si mesmo, forte tendência para a dominância, percepção inflada sobre as próprias competências, arrogância e forte extroversão. São egocêntricos, não tem empatia pelos outros, são extremamente competitivos. Mesmo que na superfície elaborem discursos orientados para as soluções que todos buscam, de fato tem uma preocupação centrada em si mesmos. Nas relações diretas, tendem a ser exploradores, extremamente sensíveis às criticas, egocêntricos e com um profundo sentimento de serem especiais ou escolhidos.
Nos contextos de incerteza, há uma demanda latente por força e confiança para sair da crise. O excesso de confiança dos narcisistas tende a ser confundido com força, certeza, inovação e visão.  Os seguidores, pouco confiantes nas suas próprias capacidades, olham para a projeção de certeza que os narcisistas elaboram e os seguem para ter a segurança de que alguém esta cuidando para que volte a ordem e para que se dissipe o caos.  Há a necessidade, por parte dos seguidores, de sentirem-se seguros. A busca por segurança elimina a busca pela razão, pela lógica, por análises robustas de cenários e por desejo de participação. A escolha desses líderes reforça a transferência de responsabilidade e a infantilização dos seguidores.
A busca pela certeza leva a busca por ortodoxias de pensamento. E isso leva ao conflito, que reforça a sensação de caos e a busca por líderes narcisistas, que usam discursos simplórios, com palavras-chave dessas ortodoxias de pensamento, em um circulo vicioso que destrói capacidade de enfrentamento real dos problemas.
Autores do séc. XIX, que viviam outro contexto e outros desafios, viraram bíblias, textos sagrados com verdades reveladas, tanto para seguidores da esquerda quanto da direita.  Nas organizações privadas, aboliram-se as referências. Há um líder “interpreta” o que todos devem fazer sem consultar ninguém a não ser as próprias certezas (narcísicas).

Eu estou fazendo fantasias ou mais alguém está observando esse fenômeno, tão bem estudado na literatura, se instalando entre nós?

A diferença entre líderes narcisistas e os líderes capazes de produzir resultados coletivos extraordinários está na orientação para os resultados coletivos, no compromisso e comprometimento com uma causa e forte empatia por aqueles que desejam colaborar com ela. São capazes de distribuir poder e influência, abrindo espaço para a colaboração e cooperação. Com isso, expandem a sua zona de influencia para muito além do que é possível com controle e monitoramento direto.
Há uma relação direta entre esse tipo de liderança e o desenvolvimento das potencialidades do conjunto. Há uma relação inversa entre a liderança narcisista e os mesmos resultados. A liderança narcisista atrofia a capacidade de colaboração, e, portanto de desenvolvimento daqueles que estão próximos.

Confundem-se facilmente os narcisistas com os verdadeiros líderes porque há características comuns: autoconfiança, extroversão e propensão a influenciar o comportamento dos outros. Para diferenciar, é preciso ver: qual a missão, a visão de mundo e o caminho que o individuo aponta! Qual é a sua trajetória de vida e como ele se relaciona com a complexidade: subestima e simplifica ou constrói coalisões para enfrentar os desafios? E se ele tem uma visão clara de como os outros podem colaborar com ele e abre espaço para a colaboração e para o crescimento dos outros. Quem simplifica a complexidade, subestima os desafios, tem muitas certezas e não dialoga, é um narcisista sem dúvidas.
Incerteza, radicalismo e lideranças narcisistas

Ao longo da história houve inúmeros momentos em que o aumento da incerteza (do contexto, dos cenários, da economia) favoreceu o crescimento de lideranças narcisistas. Esses líderes têm impacto negativo nas competências de outras pessoas que o cercam e são facilmente confundidos com lideranças carismáticas. Nas organizações privadas eles têm impacto negativo no desempenho. Na área pública eles têm impacto negativo no desenvolvimento das instituições e na democracia. O narcisista é aquele que demonstra confiança suprema em si mesmo, forte tendência para a dominância, percepção inflada sobre as próprias competências, arrogância e forte extroversão. São egocêntricos, não tem empatia pelos outros, são extremamente competitivos. Mesmo que na superfície elaborem discursos orientados para as soluções que todos buscam, de fato tem uma preocupação centrada em si mesmos. Nas relações diretas, tendem a ser exploradores, extremamente sensíveis às criticas, egocêntricos e com um profundo sentimento de serem especiais ou escolhidos.
Nos contextos de incerteza, há uma demanda latente por força e confiança para sair da crise. O excesso de confiança dos narcisistas tende a ser confundido com força, certeza, inovação e visão.  Os seguidores, pouco confiantes nas suas próprias capacidades, olham para a projeção de certeza que os narcisistas elaboram e os seguem para ter a segurança de que alguém esta cuidando para que volte a ordem e para que se dissipe o caos.  Há a necessidade, por parte dos seguidores, de sentirem-se seguros. A busca por segurança elimina a busca pela razão, pela lógica, por análises robustas de cenários e por desejo de participação. A escolha desses líderes reforça a transferência de responsabilidade e a infantilização dos seguidores.
A busca pela certeza leva a busca por ortodoxias de pensamento. E isso leva ao conflito, que reforça a sensação de caos e a busca por líderes narcisistas, que usam discursos simplórios, com palavras-chave dessas ortodoxias de pensamento, em um circulo vicioso que destrói capacidade de enfrentamento real dos problemas.
Autores do séc. XIX, que viviam outro contexto e outros desafios, viraram bíblias, textos sagrados com verdades reveladas, tanto para seguidores da esquerda quanto da direita.  Nas organizações privadas, aboliram-se as referências. Há um líder “interpreta” o que todos devem fazer sem consultar ninguém a não ser as próprias certezas (narcísicas).

Eu estou fazendo fantasias ou mais alguém está observando esse fenômeno, tão bem estudado na literatura, se instalando entre nós?
Incerteza, radicalismo e lideranças narcisistas

Ao longo da história houve inúmeros momentos em que o aumento da incerteza (do contexto, dos cenários, da economia) favoreceu o crescimento de lideranças narcisistas. Esses líderes têm impacto negativo nas competências de outras pessoas que o cercam e são facilmente confundidos com lideranças carismáticas. Nas organizações privadas eles têm impacto negativo no desempenho. Na área pública eles têm impacto negativo no desenvolvimento das instituições e na democracia. O narcisista é aquele que demonstra confiança suprema em si mesmo, forte tendência para a dominância, percepção inflada sobre as próprias competências, arrogância e forte extroversão. São egocêntricos, não tem empatia pelos outros, são extremamente competitivos. Mesmo que na superfície elaborem discursos orientados para as soluções que todos buscam, de fato tem uma preocupação centrada em si mesmos. Nas relações diretas, tendem a ser exploradores, extremamente sensíveis às criticas, egocêntricos e com um profundo sentimento de serem especiais ou escolhidos.
Nos contextos de incerteza, há uma demanda latente por força e confiança para sair da crise. O excesso de confiança dos narcisistas tende a ser confundido com força, certeza, inovação e visão.  Os seguidores, pouco confiantes nas suas próprias capacidades, olham para a projeção de certeza que os narcisistas elaboram e os seguem para ter a segurança de que alguém esta cuidando para que volte a ordem e para que se dissipe o caos.  Há a necessidade, por parte dos seguidores, de sentirem-se seguros. A busca por segurança elimina a busca pela razão, pela lógica, por análises robustas de cenários e por desejo de participação. A escolha desses líderes reforça a transferência de responsabilidade e a infantilização dos seguidores.
A busca pela certeza leva a busca por ortodoxias de pensamento. E isso leva ao conflito, que reforça a sensação de caos e a busca por líderes narcisistas, que usam discursos simplórios, com palavras-chave dessas ortodoxias de pensamento, em um circulo vicioso que destrói capacidade de enfrentamento real dos problemas.
Autores do séc. XIX, que viviam outro contexto e outros desafios, viraram bíblias, textos sagrados com verdades reveladas, tanto para seguidores da esquerda quanto da direita.  Nas organizações privadas, aboliram-se as referências. Há um líder “interpreta” o que todos devem fazer sem consultar ninguém a não ser as próprias certezas (narcísicas).

Eu estou fazendo fantasias ou mais alguém está observando esse fenômeno, tão bem estudado na literatura, se instalando entre nós?

A diferença entre líderes narcisistas e os líderes capazes de produzir resultados coletivos extraordinários está na orientação para os resultados coletivos, no compromisso e comprometimento com uma causa e forte empatia por aqueles que desejam colaborar com ela. São capazes de distribuir poder e influência, abrindo espaço para a colaboração e cooperação. Com isso, expandem a sua zona de influencia para muito além do que é possível com controle e monitoramento direto.
Há uma relação direta entre esse tipo de liderança e o desenvolvimento das potencialidades do conjunto. Há uma relação inversa entre a liderança narcisista e os mesmos resultados. A liderança narcisista atrofia a capacidade de colaboração, e, portanto de desenvolvimento daqueles que estão próximos.

Confundem-se facilmente os narcisistas com os verdadeiros líderes porque há características comuns: autoconfiança, extroversão e propensão a influenciar o comportamento dos outros. Para diferenciar, é preciso ver: qual a missão, a visão de mundo e o caminho que o individuo aponta! Qual é a sua trajetória de vida e como ele se relaciona com a complexidade: subestima e simplifica ou constrói coalisões para enfrentar os desafios? E se ele tem uma visão clara de como os outros podem colaborar com ele e abre espaço para a colaboração e para o crescimento dos outros. Quem simplifica a complexidade, subestima os desafios, tem muitas certezas e não dialoga, é um narcisista sem dúvidas.