terça-feira, 3 de outubro de 2017

Incerteza, radicalismo e lideranças narcisistas

Ao longo da história houve inúmeros momentos em que o aumento da incerteza (do contexto, dos cenários, da economia) favoreceu o crescimento de lideranças narcisistas. Esses líderes têm impacto negativo nas competências de outras pessoas que o cercam e são facilmente confundidos com lideranças carismáticas. Nas organizações privadas eles têm impacto negativo no desempenho. Na área pública eles têm impacto negativo no desenvolvimento das instituições e na democracia. O narcisista é aquele que demonstra confiança suprema em si mesmo, forte tendência para a dominância, percepção inflada sobre as próprias competências, arrogância e forte extroversão. São egocêntricos, não tem empatia pelos outros, são extremamente competitivos. Mesmo que na superfície elaborem discursos orientados para as soluções que todos buscam, de fato tem uma preocupação centrada em si mesmos. Nas relações diretas, tendem a ser exploradores, extremamente sensíveis às criticas, egocêntricos e com um profundo sentimento de serem especiais ou escolhidos.
Nos contextos de incerteza, há uma demanda latente por força e confiança para sair da crise. O excesso de confiança dos narcisistas tende a ser confundido com força, certeza, inovação e visão.  Os seguidores, pouco confiantes nas suas próprias capacidades, olham para a projeção de certeza que os narcisistas elaboram e os seguem para ter a segurança de que alguém esta cuidando para que volte a ordem e para que se dissipe o caos.  Há a necessidade, por parte dos seguidores, de sentirem-se seguros. A busca por segurança elimina a busca pela razão, pela lógica, por análises robustas de cenários e por desejo de participação. A escolha desses líderes reforça a transferência de responsabilidade e a infantilização dos seguidores.
A busca pela certeza leva a busca por ortodoxias de pensamento. E isso leva ao conflito, que reforça a sensação de caos e a busca por líderes narcisistas, que usam discursos simplórios, com palavras-chave dessas ortodoxias de pensamento, em um circulo vicioso que destrói capacidade de enfrentamento real dos problemas.
Autores do séc. XIX, que viviam outro contexto e outros desafios, viraram bíblias, textos sagrados com verdades reveladas, tanto para seguidores da esquerda quanto da direita.  Nas organizações privadas, aboliram-se as referências. Há um líder “interpreta” o que todos devem fazer sem consultar ninguém a não ser as próprias certezas (narcísicas).

Eu estou fazendo fantasias ou mais alguém está observando esse fenômeno, tão bem estudado na literatura, se instalando entre nós?

A diferença entre líderes narcisistas e os líderes capazes de produzir resultados coletivos extraordinários está na orientação para os resultados coletivos, no compromisso e comprometimento com uma causa e forte empatia por aqueles que desejam colaborar com ela. São capazes de distribuir poder e influência, abrindo espaço para a colaboração e cooperação. Com isso, expandem a sua zona de influencia para muito além do que é possível com controle e monitoramento direto.
Há uma relação direta entre esse tipo de liderança e o desenvolvimento das potencialidades do conjunto. Há uma relação inversa entre a liderança narcisista e os mesmos resultados. A liderança narcisista atrofia a capacidade de colaboração, e, portanto de desenvolvimento daqueles que estão próximos.

Confundem-se facilmente os narcisistas com os verdadeiros líderes porque há características comuns: autoconfiança, extroversão e propensão a influenciar o comportamento dos outros. Para diferenciar, é preciso ver: qual a missão, a visão de mundo e o caminho que o individuo aponta! Qual é a sua trajetória de vida e como ele se relaciona com a complexidade: subestima e simplifica ou constrói coalisões para enfrentar os desafios? E se ele tem uma visão clara de como os outros podem colaborar com ele e abre espaço para a colaboração e para o crescimento dos outros. Quem simplifica a complexidade, subestima os desafios, tem muitas certezas e não dialoga, é um narcisista sem dúvidas.
Incerteza, radicalismo e lideranças narcisistas

Ao longo da história houve inúmeros momentos em que o aumento da incerteza (do contexto, dos cenários, da economia) favoreceu o crescimento de lideranças narcisistas. Esses líderes têm impacto negativo nas competências de outras pessoas que o cercam e são facilmente confundidos com lideranças carismáticas. Nas organizações privadas eles têm impacto negativo no desempenho. Na área pública eles têm impacto negativo no desenvolvimento das instituições e na democracia. O narcisista é aquele que demonstra confiança suprema em si mesmo, forte tendência para a dominância, percepção inflada sobre as próprias competências, arrogância e forte extroversão. São egocêntricos, não tem empatia pelos outros, são extremamente competitivos. Mesmo que na superfície elaborem discursos orientados para as soluções que todos buscam, de fato tem uma preocupação centrada em si mesmos. Nas relações diretas, tendem a ser exploradores, extremamente sensíveis às criticas, egocêntricos e com um profundo sentimento de serem especiais ou escolhidos.
Nos contextos de incerteza, há uma demanda latente por força e confiança para sair da crise. O excesso de confiança dos narcisistas tende a ser confundido com força, certeza, inovação e visão.  Os seguidores, pouco confiantes nas suas próprias capacidades, olham para a projeção de certeza que os narcisistas elaboram e os seguem para ter a segurança de que alguém esta cuidando para que volte a ordem e para que se dissipe o caos.  Há a necessidade, por parte dos seguidores, de sentirem-se seguros. A busca por segurança elimina a busca pela razão, pela lógica, por análises robustas de cenários e por desejo de participação. A escolha desses líderes reforça a transferência de responsabilidade e a infantilização dos seguidores.
A busca pela certeza leva a busca por ortodoxias de pensamento. E isso leva ao conflito, que reforça a sensação de caos e a busca por líderes narcisistas, que usam discursos simplórios, com palavras-chave dessas ortodoxias de pensamento, em um circulo vicioso que destrói capacidade de enfrentamento real dos problemas.
Autores do séc. XIX, que viviam outro contexto e outros desafios, viraram bíblias, textos sagrados com verdades reveladas, tanto para seguidores da esquerda quanto da direita.  Nas organizações privadas, aboliram-se as referências. Há um líder “interpreta” o que todos devem fazer sem consultar ninguém a não ser as próprias certezas (narcísicas).

Eu estou fazendo fantasias ou mais alguém está observando esse fenômeno, tão bem estudado na literatura, se instalando entre nós?
Incerteza, radicalismo e lideranças narcisistas

Ao longo da história houve inúmeros momentos em que o aumento da incerteza (do contexto, dos cenários, da economia) favoreceu o crescimento de lideranças narcisistas. Esses líderes têm impacto negativo nas competências de outras pessoas que o cercam e são facilmente confundidos com lideranças carismáticas. Nas organizações privadas eles têm impacto negativo no desempenho. Na área pública eles têm impacto negativo no desenvolvimento das instituições e na democracia. O narcisista é aquele que demonstra confiança suprema em si mesmo, forte tendência para a dominância, percepção inflada sobre as próprias competências, arrogância e forte extroversão. São egocêntricos, não tem empatia pelos outros, são extremamente competitivos. Mesmo que na superfície elaborem discursos orientados para as soluções que todos buscam, de fato tem uma preocupação centrada em si mesmos. Nas relações diretas, tendem a ser exploradores, extremamente sensíveis às criticas, egocêntricos e com um profundo sentimento de serem especiais ou escolhidos.
Nos contextos de incerteza, há uma demanda latente por força e confiança para sair da crise. O excesso de confiança dos narcisistas tende a ser confundido com força, certeza, inovação e visão.  Os seguidores, pouco confiantes nas suas próprias capacidades, olham para a projeção de certeza que os narcisistas elaboram e os seguem para ter a segurança de que alguém esta cuidando para que volte a ordem e para que se dissipe o caos.  Há a necessidade, por parte dos seguidores, de sentirem-se seguros. A busca por segurança elimina a busca pela razão, pela lógica, por análises robustas de cenários e por desejo de participação. A escolha desses líderes reforça a transferência de responsabilidade e a infantilização dos seguidores.
A busca pela certeza leva a busca por ortodoxias de pensamento. E isso leva ao conflito, que reforça a sensação de caos e a busca por líderes narcisistas, que usam discursos simplórios, com palavras-chave dessas ortodoxias de pensamento, em um circulo vicioso que destrói capacidade de enfrentamento real dos problemas.
Autores do séc. XIX, que viviam outro contexto e outros desafios, viraram bíblias, textos sagrados com verdades reveladas, tanto para seguidores da esquerda quanto da direita.  Nas organizações privadas, aboliram-se as referências. Há um líder “interpreta” o que todos devem fazer sem consultar ninguém a não ser as próprias certezas (narcísicas).

Eu estou fazendo fantasias ou mais alguém está observando esse fenômeno, tão bem estudado na literatura, se instalando entre nós?

A diferença entre líderes narcisistas e os líderes capazes de produzir resultados coletivos extraordinários está na orientação para os resultados coletivos, no compromisso e comprometimento com uma causa e forte empatia por aqueles que desejam colaborar com ela. São capazes de distribuir poder e influência, abrindo espaço para a colaboração e cooperação. Com isso, expandem a sua zona de influencia para muito além do que é possível com controle e monitoramento direto.
Há uma relação direta entre esse tipo de liderança e o desenvolvimento das potencialidades do conjunto. Há uma relação inversa entre a liderança narcisista e os mesmos resultados. A liderança narcisista atrofia a capacidade de colaboração, e, portanto de desenvolvimento daqueles que estão próximos.

Confundem-se facilmente os narcisistas com os verdadeiros líderes porque há características comuns: autoconfiança, extroversão e propensão a influenciar o comportamento dos outros. Para diferenciar, é preciso ver: qual a missão, a visão de mundo e o caminho que o individuo aponta! Qual é a sua trajetória de vida e como ele se relaciona com a complexidade: subestima e simplifica ou constrói coalisões para enfrentar os desafios? E se ele tem uma visão clara de como os outros podem colaborar com ele e abre espaço para a colaboração e para o crescimento dos outros. Quem simplifica a complexidade, subestima os desafios, tem muitas certezas e não dialoga, é um narcisista sem dúvidas.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O BOPE, a espiritualidade no mundo do trabalho e a necessidade de uma imprensa um pouco mais profunda!

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/07/1901929-bope-abre-templo-evangelico-e-utiliza-versiculos-para-justificar-letalidade.shtml

O BOPE, a espiritualidade e a condição humana
Carmen Migueles

Eu e Marco Tulio Zanini, estudamos o BOPE desde 2011. Escolhemos estudar esse batalhão para compreender como conseguiram constituir equipes de alto desempenho frente a tanta adversidade. É um tema de interesse em gestão pública e somos professores e pesquisadores na área. Em termos de gestão, o BOPE é considerado uma CAO: critical action organization, em inglês, em que qualquer erro pode ser fatal.
Publicamos o nosso primeiro livro sobre o tema em 2014. Escolhemos uma CAO para estudar o papel da confiança em casos extremos. Temos outros artigos acadêmicos sobre o tema.
Acabamos de submeter um paper acadêmico para publicação próxima sobre a questão da espiritualidade no batalhão. Não incluímos esse tema no livro, porque era de tanta sutileza e complexidade que demandava uma analise antropológica mais robusta. E me impressionou a forma leviana com a qual o tema foi tratado na folha de São Paulo.
A questão da espiritualidade existe na tropa. Por uma questão simples: como conviver com a morte, o mal, o crime, a covardia, a injustiça, a tortura de menores por bandidos, a vitimização dos inocentes nas comunidades, uma rotina de trabalho marcada pela violência e pelo risco de vida mantendo a saúde mental? Como lidar com uma rotina tão dura, com tanto risco pessoal e profissional, e perseverar na tarefa? Por que não desistem e mudam de emprego? O que os faz ir para o trabalho todos os dias? Qual é a fonte da sua motivação? Eram algumas das perguntas que buscávamos responder para entender os desafios da gestão pública nessa área.
 Já são 91 policiais mortos. E quem esta nessa profissão tem como rotina ir ao enterro de colegas jovens e ver nesses as viúvas com seus filhos pequenos, agora órfãos. Conhecemos alguns desses. Saem de casa para trabalhar todos os dias, como dizem eles, “sem flores para recebê-los! É só bala”! Vêem o retorno da insegurança e da violência e a desconstrução de muito do que fizeram nos últimos anos. Há não muito tempo atrás, conversamos com a liderança do Batalhão sobre um programa para a preparação do BOPE para paz.... quando sonhávamos que a politica publica de segurança daria certo e a tropa teria apenas uma função de manutenção dessa. Nos surpreende uma matéria de jornal que dá a entender que há algo do tipo “Ceita” se formando no interior da unidade. Que lança uma fagulha de desconfiança de que ali alguns loucos usam a religião para justificar a morte. E atiça o medo e a desconfiança sobre uma tropa que é referencia mundial naquilo que faz e onde pessoas como eu e você trabalham duro para fazer a coisa certa, com um volume enorme de dificuldades e muita falta de apoio.
O símbolo do BOPE nada tem a ver com uma imagem Cristã. Foi concebido pelo coronel Almendola, um dos fundadores da unidade, nos idos anos de 1978, que nos deu uma longa entrevista sobre a razão pela qual era importante ter um símbolo e porque esse símbolo: o espirito de corpo é o que garante que um soldado não deixara o outro ferido no campo de batalha. O sentimento de unidade, de identidade e o senso de missão é o que precisa orientar a ação. Um soldado sozinho é vitima fácil. Uma equipe bem treinada é a espada da lei.  A caveira é um símbolo antigo nas organizações militares. A faca na caveira simboliza vitória sobre a morte. E esta relacionada diretamente ao objetivo de realizar as operações sem nenhuma morte: nem do policial. Nem dos cidadãos no entorno. Nem dos bandidos, que devem ser levados à justiça. Cumprir a lei, para eles, é zelar por esse ideal. O treinamento duro tem por objetivo retomar o território que esta sob o domínio do crime, permitir a ação do Estado e o domínio da lei, e instaurar a paz. Para isso, o controle da agressividade, a busca incessante pela excelência, o treinamento robusto, a busca constante por identificar quem possa manchar esse ideal e afastar do grupo faz parte de esforço continuo. O circulo vermelho é a força da lealdade, que é o que garante a vida de cada um.  As duas garruchas cruzadas são o símbolo da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro. O formato da faca não é referencia à cruz. É uma arma de batalha. Nem o vermelho é uma referência ao sangue de Cristo.
            Sim. Eles rezam. Se sua vida corresse risco diário talvez você também o fizesse. E sim, eles sabem que podem errar. E que quando isso acontece, as consequências podem ser terríveis. É preciso rezar por isso também. É preciso rezar para ter forças e perseverar na luta contra o crime. Para não ser atingido por balas ao longo da rotina diária de trabalho. Para tolerar o volume de maldades que veem diariamente. Para conseguir voltar para cada e ser um pai e um marido normal. E para ir a tanto enterro de colegas de trabalho.
            Agora: nesses 6 anos de estudo no Batalhão, nunca vimos, em nenhuma circunstancia, alguém usar versículos para justificar letalidades. Nunca vimos também a “exclusividade de evangélicos”. Não falamos da espiritualidade de maneira leviana nos nossos escritos. Entendemos, com Viktor Frankl, que a busca do sentido é fundamental para a saúde mental e para dar-lhes força para perseverar em uma profissão que lhes impõe tantos riscos. E entendemos que esse é o caso dos policiais do BOPE. Que como tantos outros estão com suas vidas em risco para defender a nossa.

Trechos do nosso paper, que será publicado em breve:
This is a paper on spirituality at work in an organization embedded in a very specific institutional arrangement. Institutional diversity (Ostron, 2005) matters, especially in the configuration of the context in which spirituality can emerge as a way to grasp reality, impose meaning on experience and shape the way to interact with instable course of social action (Weber, 1968; Eliade, 1992).  Metaphysics is relevant to produce stable references, grounds for cognition, and frames of reference for interpretation of reality and judgement (Douglas, 1966 and 1986). It is even truer in institutional arrangements where the available schemes of thought fail in providing the necessary grounds for decision and action. Besides, spirituality, and the desire to be connected to other spheres can be a way to feel saturated with power (Eliade, 1992, p. 13) and it can be extremely relevant if one’s daily activity deals with life-risking situations and with the proximity to death.
…..The study that gave origin to this paper started with a rather simpler goal. At first, we intended to understand the role of trust and leadership in extreme situations. We chose a Special Forces Unit in search for the elements of informal coordination that are relevant for the modus operandi of organizations that act in sceneries of high complexity and high uncertainty (Zanini, et al. 2013 and 2014).  However, on the course of empirical investigation, we were led to so many unexpected situations, for which our original analytic framework was so obviously inadequate, that we felt compelled to move toward a more in-depth, qualitative dive than we had originally imagined.
…..The research on the motivation to fight crime in Rio by members of BOPE was accomplished with the combination of three methods: ethnography, with participant observation at the headquarter (for safety reasons we were not allowed to accompany the troops in missions), in depth interviews with leaders and retired members, and quantitative analysis (Zanini, et al. 2013a; 2014). The unit has 543 members.
……We call “elements of informal coordination” all tacit solutions of internal integration that are critical for the acceptance of high risk and success in extreme conditions. This is a case study of a CAO (Critical Action Organization). According to Hannah et al. (2009) organizations in this category deal with events of extreme uncertainty and high probability of critical consequences of large magnitude, involving risks to the lives of members and non-members.
 …..This is an extreme case among CAO (Zanini et al. 2013 and 2014), with daily operations under extreme circumstances, in which the lives of agents are constantly under threat and the results in terms of military and civil casualties are comparatively higher. We attempt to understand, in this exceptional case, what led the officers to perform their duties under adverse conditions, and how they organized themselves to do it, both in terms of organizational design as in efforts to enhance effectiveness.
……We investigated BOPE (Batalhão de Operações Especiais, the Battalion of Special Operations) from the Military Police of Rio de Janeiro. According to Decéné (2009), this type of special unit operations was created during the Second World War to use violence in a planned and punctual way to reach better results than those possible by conventional forces. BOPE was created in 1978, inspired by those post-war units, to fight the growing urban violence in Rio de Janeiro. They are organized in smaller, autonomous units, with fewer soldiers and a new combination between information, technology and strategy. This organization is important to increase effectiveness in actions with features of urban guerrilla.   In terms of military organization, these units are designed to be effective alternatives for the growing complexity and uncertainty of the combats, given the risks for civilians, soldiers and criminals. For these purposes, centralized control tends to be inefficient (Spulak, 2007). Shared leadership and autonomy are key to success, but it increases the demand for intangible mechanisms of coordination and reduce the effectiveness of command and control (Zanini et al., 2014). Those units usually have a strong internal cohesion and a strong sense of devotion to a common cause in common (Weber, 1968; Clausewitz, 1979; Storani, 2006; Spulak, 2007; Decéné, 2009; Zanini, 2013). Differently from those units that fight terrorism or guerrilla type wars, that deal with an external enemy, BOPE deals with citizens of the same city, organized and random crime deeply entrenched in slums, where many times the local, poor population, functions as human fences blocking the entry of the police and the state, in general. Their main mission, to deterritorizalize crime, today in control of many areas in the city, is what leads them to the core of a rather chaotic territory, not only geographically, but especially symbolic.  We observed that the notion of enemy in this context and the decision of when and how to act is deeply related to their identity and cultural imaginary about their mission. Their relation to metaphysical reality is the core to their organizational culture.
…..Many studies of this type of organization point to the great importance of first level leadership, with a central role in planning and commanding operations (Storani, 2006, Spulak, 2007, Decéné, 2009). They also argue that shared leadership has a relevant role in internal coordination at those units and that their efficacy depends, significantly, on the respect for the direct leader, on loyalty to peers and the leader, respect and a predisposition to accept command. Weber (1968) and Clausewitz (1979) call attention to the role of charisma and a sense of mission for the internal coordination and military success, to the development of the “spirit of the corps” (generally defined as loyalty and trust in the fellow soldiers and leadership, where one finds strength and inspiration. Clausewitz, 1979), and performance in war.
........ Symbolism: a patron, a totem: the skull - were all mechanisms of controlling what they called “excessive energy” and its dispersive effects. On the one hand, they recognize the importance of searching for the ideal profile of a soldier for this sort of special operation, the extreme rigor in the selection process and the hardship of the training period, in which many times the officers tested the energy and desire of the soldier to remain in this career. On the other hand, they point to the challenge of controlling these men in action. Symbolism, rituals and history are the resources at hand. This is clear to all of those in a leadership position.
………….. Lévi-Strauss (1977) notes that the demand for order, observed both in “primitive” thought as much as in the concern for organizing and typology creation in science, as all other ordering efforts, have in common the fact that they have an eminent aesthetic dimension. Order in thought, in nature and on metaphysics, are both, at the same type, precondition for thinking and an aesthetic demand. Lévi-Strauss quote an indigenous thinker as he expressed this idea in a sentence: “every sacred thing must be in the right place”, an idea that Douglas (1966) somehow embraces later. The idea of “order” as an esthetical dimension, and the cultural effort to order the world as a basis of the capacity to think, connects the process of ordering the world as part of the esthetical experience. The need for order is not a demand of the primitive thought, mas of all thought (Levi-Strauss, 1997, p. 25). The first object of this mode of knowing corresponds to intellectual demands, prior to satisfy any other practical needs. If we fail to impose order to experience, even if it is done only in thought, is as “the entire universe order could be destroyed” (p. 24). The invocations that emerge of these efforts for ordering correspond to the capacity to “proceed safely” (p. 25). The magic thought, is a variation on the theme of the principle of causality. In this case, the difference between science and witchcraft is smaller than a distance observation could suppose.
……….. The understanding of the importance of the symbolic universe and metaphysics for military organization is ancient. Weber (1968, p. 49) points to the fact that leadership in military operations cannot be explained by reason alone. He observes that charismatic authority, necessary in this type of organization, is specifically outside the realm of every-day routine and the profane sphere. According to him, there is a strong element of irrationality in these bonds of loyalty and commitment. It is precisely that what is necessary to be better understood. We wish to understand this “hunger” for effectiveness, the forming elements of this will and the sort of cultural creativity it engenders.  There is a clear search for increasing power over chaos, a search that is oriented towards the improvement of self-discipline and team performance, as well as the capacity to offer resistance to what is perceived as social and institutional disorder.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sobre o conceito de igualdade, a diferença entre liberais e socialistas e os desafios contemporâneos



      Há uma ideia de igualdade que é muito importante para o pensamento liberal. Há uma ideia de igualdade que é muito importante para o pensamento socialista. Vale tentar entender a diferença.
O conceito liberal de igualdade tem origem na ética protestante e tem um forte elemento de imanência. Há aqui a ideia de que consciência tem autonomia sobre os fatores externos e que se o indivíduo puder escolher, ele (a) saberá o que é melhor para si. Ninguém pode escolher pelo outro e quanto mais livres forem os seres humanos melhor será a sociedade. Todos são iguais nesse sentido: cada indivíduo tem valor em si. Uma vida não vale mais do que a outra. A vida humana é sagrada. A liberdade é fundamental para que o ser humano tenha uma vida plena. A igualdade política (cada indivíduo um voto) e jurídica (todos iguais perante a lei) é básica para a vida em sociedade. Há aqui a ideia de que o poder emana dos cidadãos e de que o Estado precisa ser controlado para que não roube a liberdade dos indivíduos.  Qualquer um com poder demais tende a abusar dele. A liberdade, portanto, emerge onde o “poder pode ser picado em pedaços” . Soma-se a isso a ideia de que o ser humano é egoísta por natureza (expressa na Teoria dos Sentimentos Morais de Adam Smith, que é fundante para o liberalismo), e que isso precisa ser levado em conta na organização política da sociedade.
           O conceito de igualdade socialista é relativo à igualdade econômica e ao reconhecimento de que há injustiça na desigualdade. Uns nascem fortes, ricos e saudáveis. Outros nascem fracos, pobres e talvez até doentes. E essa injustiça deveria ser corrigida pela sociedade. Há a ideia de que o homem é bom por natureza, a sociedade que o corrompe (expressa nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de Marx), que recorre a complexa teoria da evolução dialética na história para explicar porque, embora o homem seja bom por natureza, a sociedade, que é um produto seu, o torna mau.
A oposição política se dá porque o conceito liberal de igualdade, nessa perspectiva, é acusado de injusto, porque os mais fortes e mais capazes acabam ficando com mais. Nesse sentido, seria importante um estado forte, com lideranças socialistas, para redistribuir as riquezas. Para os liberais, essa distribuição levaria a todos para a miséria e criaria oportunidades para oportunismos de toda natureza, o que, no fim, acabaria com qualquer motivação para trabalhar, jogando a todos na para uma situação pior.
Parte do debate se dá porque os liberais acreditam que se estamos em uma sociedade livre, onde não se pode prender (só o Estado pode, e no cumprimento da lei) ou escravizar o outro, os indivíduos podem procurar o que é melhor para eles e sair da situação de pobreza: podem empreender, por exemplo. Para os socialistas, a consciência é determinada pelas condições econômicas de produção (há um determinismo econômico) e há uma dependência dos mais pobres em relação aos detentores da propriedade. Marx usa o conceito de alienação e de ideologia para tentar explicar a questão da aceitação da ordem capitalista por parte dos trabalhadores (ou seja, eles aceitam trabalhar porque são alienados). Ou seja, há uma “falsa consciência” dos oprimidos. Daí a importância da liderança. E daí a relação entre socialismo e totalitarismo. O pobre não sabe o que é melhor para ele. Portanto, o conceito de igualdade dos socialistas não é ontológico. Há uns que são melhores do que os outros. Esses têm maiores responsabilidades e maior direito de buscar o poder político em nome dos alienados. Daí também a importância do discurso político da opressão. O partido ou a liderança irão salvar o oprimido “dos opressores”. Sendo o “opressor” um “sistema”, “uma maioria”, que se você não consegue enxergar é porque você é cego ou alienado. Se você não quiser sê-lo, precisa afirmar uma posição de salvação….
       O voto, para os liberais, precisa ser em um igual: outro ser humano com habilidades e competências limitadas, mas com um projeto de gestão pública claro, racional, transparente e que ajuste meios aos fins. Para os socialistas o voto é em uma liderança, capaz de nos salvar de nós mesmos.
                Esse debate reflete as discussões do século XIX sobre a natureza dos homens e as melhores formas de organizar a vida em sociedade. Há, no pensamento liberal do século XIX o pressuposto da independência. Há, no pensamento socialista, o pressuposto da dependência. Isso se traduziu, em termos acadêmicos, no individualismo metodológico da economia, por um lado, e no holismo metodológico de várias correntes da sociologia, por outro. O holismo, na sociologia, vem sendo criticado por vários sociólogos por eliminar o conceito de ação humana. O individualismo metodológico por eliminar os aspectos sociais do comportamento humano, inclusive a cultura, algo que os neoinstitucionalistas buscam resgatar, mas ainda derrapam nos desafios do individualismo metodológico.  

      É necessário progredir para um debate sobre a interdependência. A liberdade com responsabilidade de fato leva nessa direção. É necessário respeitar as liberdades individuais, senão a vida vira um inferno e a produtividade da economia desaparece. Mas é necessário fazer isso levando em conta que a racionalidade humana é fortemente impactada pelas formas de inserção social. Não é possível acreditar ou afirmar que a criança pobre que nasce na favela, não tem acesso à educação e é vulnerável ao crime está em condições de tomar decisões e fazer escolhas da mesma forma que aqueles que foram bem-educados para isso.  Tanto o egoísmo e quanto a solidariedade totalitária precisam ficar para trás. Precisamos pensar nas formas de subsidiariedade que de fato construirão uma sociedade mais livre e mais humana. Liberdade com co-responsabilidade é fundamental para um país com grandes desigualdades. E nesse contexto, a polaridade entre direita e esquerda só aumenta o ódio e a polarização estéril do debate politico. E isso ocorre por que a definição a priori de um conceito de homem funda uma ideologia. Ao fazê-lo, constrói muros. Que tal deixarmos esse debate com os mortos que os criaram e olhar para o futuro?
            O ser humano pode ser egoísta. Mas pode também ser altruísta. É aberto para bem, mas também pode ser aberto para o mal. Precisamos apoiar as pessoas na busca produtiva e evitar que os oportunistas se apoderem do trabalho alheio. Precisamos evitar a construção de um estado monstruoso onde a corrupção e o crime podem se instalar de forma tão robusta quanto a que vemos agora, dragando recursos do trabalho de todos. Mas precisamos, também, cuidar dos mais vulneráveis. O século XXI é o século do "E" - o século XIX foi o século do "OU". Não é uma coisa ou outra. É uma coisa e outra. E só a um jeito de fazer isso: com respeito pelas pessoas, por suas liberdades e estratégias claras e transparentes de subsidiariedade.
               Mas o curioso é como, embora se fale de inovação como valor, em termos de politica muitos preferem manter-se fiéis aos pensadores do passado.  A realidade mudou. A economia mudou. A sociedade e a politica também. O mundo ficou mais complexo. Mais integrado. A volatilidade e a incerteza aumentaram. Precisamos olhar para isso. Construir a partir disso. Precisamos pensar com novas ferramentas. Rever conceitos. Se olharmos para esses pensadores como iguais, pessoas como nós quebrando a cabeça para fazer sentido do que viam e viviam, podemos enxergar a quantidade de trabalho que há para fazer. Eles não poderiam antecipar o que estamos vivendo. Pensaram para a sua época. Mas curiosamente foram transformados em oráculos, em textos sagrados com verdades reveladas.... é curiosa essa resistência à mudança e as reações emocionais que geram.

sábado, 15 de outubro de 2016

Por que é tão difícil, para mim, escolher o candidato no segundo turno?

Algumas pessoas que votaram em mim no primeiro turno me consultam sobre o segundo. Perguntam a minha opinião. Mas eu não sei em quem votar. Mas falo agora como cidadã comum, não mais candidata, não mais disputando esse cargo.  Explico aqui a razão da minha dificuldade. Eu acredito que o objetivo maior da política é, e deve ser, a busca pelo bem comum. Quanto a isso, a maioria da população da nossa cidade concorda. O grande desafio é definir o que é o bem comum, o que é do melhor interesse da maioria e quais são as melhores formas de produzi-lo.
Podem haver tantas definições de bem comum quanto há habitantes em nossa cidade. Se os critérios de escolha forem baseados no egoísmo e mesquinharia, é impossível chegar a um consenso. Chegaremos, sim, àquilo que Hobbes chamou de a guerra de todos contra todos. E quanto mais mergulharmos nas vontades individuais em relação às formas de chegar até esse lugar desejado e abstrato, o lugar do bem comum, maiores tenderão a ser as discordâncias. Por isso a democracia é um exercício difícil, que demanda a construção de partidos, a organização de eleições e o engajamento em debates. A paz, a prosperidade, a vida e a liberdade dependem de acordos relativos à ética e lei. Como a felicidade e a satisfação de cada um são relativas às necessidades de cada indivíduo, aprendeu-se, ao longo dos últimos milênios de história, que há mais sofrimento humano onde não há liberdade para o indivíduo, pois o governante pode decidir por nós independente das nossas necessidades e vontades.
Ao longo da história o ser humano viveu sob a regra de diferentes tipos de tirania. Desde o começo da história e da escrita vemos o peso dos sistemas de poder oprimindo os povos. A opressão dos estrangeiros dominados nas guerras e usados na construção das pirâmides e palácios dos impérios teocráticos do oriente, o escravismo antigo na antiguidade clássica, a servidão medieval, a vida sob o absolutismo monárquico, e a violência das ditaturas na idade moderna e contemporânea são duros testemunhos do que o excesso de concentração de poder é capaz de produzir em termos de sofrimento humano.  A democracia tem defeitos. Mas nem de longe se assemelha a esses outros arranjos em termos de violência e sofrimento.
Uma das maiores dificuldades da democracia é produzir consenso sobre como atuar no maior interesse do maior número de pessoas. Como arranjo político, ela está baseada na ideia de que cada indivíduo deve falar por si e escolher o caminho de ação que mais representa os seus interesses. Mas sem a capacidade de formular juízos morais e ser responsável pelos destinos da cidade e dos outros, isso não funcionaria. Portanto, há outros entendimentos prévios que precisam ser levados em conta: desde a origem, a democracia baseia-se na premissa de que as pessoas que compõe a sociedade compartilham de um destino comum. De que elas estão ligadas, formam uma unidade, seja uma nação ou uma cidade, e de que todos se beneficiam da paz e da prosperidade que puder ser construída. Há uma outra ideia subjacente aos acordos democráticos: que em uma nação ou uma cidade as pessoas compartilham de certos valores e formam, por isso, uma unidade. A escolha deveria ser sobre os melhores caminhos para a paz e prosperidade partindo de um certo consenso sobre valores.
O exercício da democracia pressupõe, portanto, a liberdade com responsabilidade. E isso pressupõe a aceitação da ética e da lei mediando a relação entre os homens. A ética e a lei, por sua vez, pressupõe a capacidade de renúncia de cada indivíduo, da sua autodisciplina, da sua autonomia (auto + nomos = capacidade de dar a si mesmo a lei e norma). Como Kant, um dos grandes pensadores da ética colocou: é necessário agir de acordo com o imperativo categórico: aja de tal forma que sua ação possa servir de exemplo para todos, ser uma “máxima universal”. Para isso, é fundamental o exercício da razão e busca pelas virtudes. A relação entre esses termos é forte e direta. A democracia, portanto, está construída sobre um ideal de ser humano, capaz de cooperar para o bem coletivo a partir da sua capacidade de limitar seu próprio egoísmo, submetendo-se a lei e agindo de forma ética.
O conflito de interesses é da natureza da vida. Se cada indivíduo buscar sempre o maior prazer e o maior conforto sem levar o outro em conta, não há sociedade possível. Não é possível ser ético e buscar sempre defender o autointeresse. A democracia e a liberdade que ela garante dependem da busca por um ser humano melhor. Tenta-se construí-lo por meio da educação, da busca pela espiritualidade, pelo convencimento, pela dissuasão ou até mesmo pela força (no caso dos mecanismos de reforço das leis). Liberdade e razão são duas faces de uma mesma moeda e foram séculos de esforços na busca pelo aprimoramento institucional para chegar a esse arranjo.
 A liberdade e a razão dependem da busca pela verdade, esse ponto fugidio no horizonte que, por mais que tentemos nos aproximar, sempre nos escapa. Os filósofos concordam que, para os seres humanos, não é possível chegar à verdade, mas apenas às interpretações possíveis da realidade. Mas não podemos abrir mão do exercício de busca-la. Seja por meio da ciência, seja por meio da espiritualidade, seja por outro meio qualquer, pois essa busca é o que permite o desenvolvimento da pessoa, do ser humano, da sua capacidade de desvelar suas potencialidades, de descobrir formas de lidar com os riscos e desafios que a vida nos coloca.
Não podemos abrir mão da ética das virtudes tampouco. Pois é ela que nos ajuda a desenvolver a temperança, fundamental para pôr freio na nossa tendência aos exageros, nos gastos, nos prazeres... e a cultivar a paciência, tão necessária ao diálogo construtivo, a resiliência, tão importante para perseverar na dificílima busca por fazer diferença no mundo, a diligencia, pois é mais fácil perder para a preguiça, a bondade, pois é muito fácil julgar os outros, a caridade, que nos permite entender a dor do outro e cultivar a empatia, a humildade, que controla a nossa terrível vaidade, a castidade, que nos permite o difícil exercício da lealdade,  e tudo mais que nos permite ser livres, pois sem autocontrole somos escravos das nossas paixões, e os gregos antigos já alertavam para os riscos disso....
É no reconhecimento da existência desses desafios comuns, inelutáveis para todos os seres humanos, que nos permite pensar na igualdade: somos todos iguais, nessa terrível luta contra nós mesmos para sermos melhores. É esse reconhecimento também que nos faz valorizar a liberdade, pois não podemos nos desenvolver sem ela. E valorizar também a razão: pois é ela que nos ajuda na continua busca pela verdade e pelo conhecimento, que nos ajuda a relativizar nossos pontos de vista e nos obriga a aprender continuamente. E a compaixão, conosco e com os outros, pois somos seres de paixão e emoção e precisamos respeitar essa nossa natureza; há um equilíbrio tênue, difícil de encontrar, entre autocontrole, autoconhecimento, autocompaixão, autocomplacência, empatia, altruísmo e egoísmo.
Como a natureza humana é falha, a liberdade e a democracia pressupõe a constante vigilância. A vigilância, em termos de gestão pública, se dá pela boa governança, que são mecanismos de controle e transparência para garantir que o melhor interesse da maioria de fato é a bussola para a gestão pública. E isso pressupõe a busca pela verdade. Pressupõe clareza e pragmatismo, critérios objetivos de alocação de recursos, discutidos de forma aberta, com dados e fatos rastreáveis, com honestidade intelectual e verificação de validade das ideias e propostas.
E é por isso que não consigo escolher dessa vez. Quando vejo pessoas dizendo que devemos votar no Marcelo Crivella porque Deus quer, quando vemos a imbricação entre religião e política, voltamos à teocracia ou às teorias de direito divino dos governantes. Isso destrói a ideia de igualdade entre todos os seres humanos. Não de igualdade econômica. Mas de igualdade ontológica, essa igualdade relativa à nossa natureza, feitos de carne e osso e sujeitos às mesmas forças e fraquezas. E, portanto, da própria ideia de representatividade democrática, pois Deus escolheria uns e não outros para nos governar por critérios que nós não conseguimos conhecer. É o fim de liberdade de escolha. Se Deus escolhe por nós, logo não precisaremos mais de eleições. Quem somos nós, pobres mortais, diante desse apontamento divino? É o começo do fim do Estado Laico, e com ele do respeito à diversidade religiosa e das liberdades individuais, pois esse escolhido por Deus terá maior poder de definir a verdade que deve preponderar sobre as verdades de todos os demais. Isso me afasta do Crivella.
Mas também não consigo me aproximar do Freixo. Quando ouço a sua campanha vejo a produção do discurso em defesa das minorias como se de fato houvesse um sistema, ou uma maioria, que as perseguisse. Vejo a manipulação discursiva dos fatos para produzir adesão emocional a causas que, se olhadas de perto, de fato destroem a própria noção de bem comum e encaminha para a guerra de todos contra todos. Seus eleitores, principalmente os mais jovens, são engajados na sua campanha por que discordam da homofobia, da violência contra as mulheres, da morte dos jovens negros, da discriminação em geral. Mas a maioria da sociedade também discorda!!!! É difícil localizar essa maioria contra a qual estão lutando!
A nossa sociedade sempre foi aberta e tolerante. Existem criminosos. Existem os homofóbicos, existem a violência contra as mulheres e existe a maior mortalidade dos jovens negros. Mas há leis contra isso. A maioria da sociedade é não é favor disso e as leis são a prova dessa adesão.  Não temos cultura de estupro, não temos cultura homófobica, não temos grupos de criminosos brancos, índios ou amarelos que saem para matar negros.  Temos dificuldade de investigar, educar e punir aqueles que descumprem as leis. Temos dificuldades de apoiar os mais vulneráveis para romper o círculo vicioso da pobreza e da violência. Temos dificuldades gerenciais. Mas concordamos sobre a maioria dos problemas. Então por que dividir? Por que criar a sensação de perseguição e ódio?
Freixo, como historiador, sabe que o sentimento de pertencimento à uma nação vem enfraquecendo e que a modernidade produziu a fragmentação das identidades e a abalou os quadros de referência. Stuart Hall, dentre outros, vem estudando esse efeito. Conforme ele, as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade não mais fornecem "sólidas localizações" para os indivíduos. O que existe agora é descentramento, deslocamentos e ausência de referentes fixos ou sólidos para as identidades. Nesse cenário, a identificação surge por empatia com o sofrimento do outro. Há o crescimento da emotividade e do subjetivismo. E a campanha do Freixo cresce sobre esses dois pilares. O sofrimento subjetivo (todo o sofrimento de fato é subjetivo, as me refiro a esse de “como eu me sinto quando alguém me diz algo que me causa uma sensação ruim) ganha a mesma relevância do sofrimento causado pela miséria, pela doença e pelo abandono. A causa das minorias se dá contra inimigos genéricos e imaginários e perde de vista a situação de vulnerabilidade de grupos sociais que deveriam ser o foco mais direto das políticas públicas, e aqui me refiro especialmente à fragilidade das mães negras e pardas nas nossas favelas e outros grupos vulneráveis.
 Olhando para o discurso do Freixo, cheio de desejos de estatização e foco no papel do estado, é impossível não ver que a criação de uma empresa estatal de transporte público roubará recursos para resgatar essas mulheres da miséria para dar transporte subsidiado para jovens universitários que em relação a elas formam uma elite. É o socialismo às avessas. É a dispersão de recursos públicos sem um plano de ação coerente com capacidade de promover o bem comum. Com a imensa carga tributária que hoje incide sobre o consumo, quem mais paga imposto são os mais pobres, que precisam usar toda a sua renda para consumir. Serão os mais pobres a pagar pela dispersão dos recursos e pela criação de empresas estatais. Nossos jovens socialistas votam a favor do aumento dos impostos sobre os mais pobres, pois é daí que virão os recursos para tudo o que o Freixo propõe! Não há como vir de outro lugar. É o socialismo que tira dos pobres. Nossos jovens votam sem entender o fluxo de recursos na sociedade, sempre da sociedade civil e dos indivíduos para o Estado! E sem entender o impacto da dissipação dos recursos públicos sobre o aumento da pobreza! Andaram matando muita aula, não leram os textos certos ou simplesmente não pararam para entender como as coisas funcionam na prática, nesse tecido duro da vida que insiste em resistir aos nossos malabarismos linguísticos e as nossas noções de justiça abstratas, construída sobre conceitos que distorcem a realidade, mais do que a iluminam!
Todos os estudos do Banco Mundial (ver Global Gender Gap Report, disponível na web em PDF) e da ONU (ver metas do milênio) confirmam que já uma relação entre miséria crônica e gênero. A enorme maioria (mais de 80%, chegando a 90% dependendo da região) dos miseráveis do mundo são mulheres e crianças até 10 anos dependentes dela. A causa, é a maternidade. O abandono das mães pelos homens (na nossa cidade, cerca de 48% dos domicílios são sustentados por mulheres) gera a terrível situação de vulnerabilidade desses indivíduos. Para sair para trabalhar, a mãe deixa as crianças vulneráveis. Se não sair para trabalhar, ficam miseráveis. Esses jovens, vítimas de múltiplas formas de violência, física, sexual e/ou psicológica e abandono, são facilmente recrutados pelo tráfico e outros tipos de crimes. São eles que matam. E são eles que morrem. Nossa polícia pode ser melhorada. Mas não é ela a única ou a principal causa da enorme mortalidade de jovens negros. É o crime. E a saída é o foco nas mães e na proteção dessas crianças, com creches horário integral ou até 24 horas, para as mulheres que trabalham à noite. Como essas mães tem dificuldade de permanecer no mercado de trabalho, criar essas creches gerando emprego ou oportunidade de empreendedorismo para elas seria a política pública que mais resultados teria na construção da paz e da prosperidade na nossa cidade, pois atuaria preventivamente sobre o crime e proativamente na redução da miséria.  Os recursos são poucos. Foco é fundamental.
Mas ao invés de fazer isso, Freixo cria inúmeros inimigos imaginários e cria um programa de governo que promete dissipar recursos em diferentes áreas e iniciativas de forma errática cujo resultado obvio será a perpetuação da miséria e do crime e a falência da prefeitura.  E aprova esse projeto junto a esses públicos engajado pela emoção e pela empatia produzido por um discurso de ódio de todos contra todos. Se ganhar, e conseguir colocar o que promete em prática, essa mãe provavelmente pagará mais do que os 50% que já paga de imposto sobre a energia elétrica, 18% do feijão dos seus filhinhos, dará mais do que um iogurte para o governo a cada dois que coloca na mesa das crianças. Não está claro para esses jovens que o programa de governo do Freixo só é possível a esse custo. E isso é, no mínimo, muito, mas muito injusto mesmo.
Em ambos os casos é o fim da razão, o fim da racionalidade no uso de recursos escassos e o fim de um projeto de sociedade democrática construído sobre a ética e a potência humana. Infelizmente não há menos pior. Pois ambos diminuem o ser humano, diminuem o cidadão, na sua capacidade, na sua liberdade de escolha, na sua autonomia, como caminho para um projeto de poder.
A razão, a consciência e a ética não são o caminho mais duro. São o único caminho. Não há solução mágica. Não há ser humano capaz de eliminar todos os sofrimentos dos outros. A vida humana, o indivíduo, continua com seus riscos, com suas batalhas, com suas derrotas e com suas vitorias. A política feita a despeito da liberdade e da razão ameaçam séculos de esforços civilizatórios. Produz mais pobreza e mais sofrimento. Não há bons resultados possíveis se escolhermos qualquer uma dessas rotas. E é muito difícil antecipar os todos os resultados ruins que podem gerar. Por isso não consigo decidir.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ética e a cidadania

Ética e a cidadania

                Há  um conceito básico de ética nos textos de um dos maiores filósofos que a pensaram: é o imperativo categórico, de Kant. Segundo ele, é dever de todo ser humano agir conforme os princípios que gostaria de ver na ação de todos os outros. É ético o indivíduo que age de forma que a sua ação possa ser uma máxima universal.
                No entanto, na pratica, a vida é permeada por desafios de natureza prático-moral, em que não é possível ter 100% de razão em nenhuma linha de ação. O conflito de interesses é da natureza da vida. Por exemplo, se quisermos ser 100% a favor da preservação ambiental, no limite não podemos nem mais ter filhos, pois isso vai impactar no consumo e na produção de esgoto e lixo. Ser ético não pode ser não ter mais filhos, pois isso significaria o fim da vida humana. Ser ético é compreender o impacto que causa e tentar reduzir os danos. Portanto, ter filhos, reciclar o lixo, apagar as luzes sempre que puder, comprar carros menos poluentes, apoiar empresas éticas, que usam produtos menos tóxicos, etc. Se todos agissem dessa forma, não seriam necessários controles.
                A liberdade com responsabilidade pressupõe a capacidade de se impor sacrifícios. Se em nome de um bem maior ou do direito do outro não me imponho sacrifícios, simplesmente não sou ética. Sou só egoísta. A ética, portanto, pressupõe a busca pelo cultivo das virtudes.
                 A ética, como filosofia racional, na prática dialoga sempre com a cultura. E a nossa cultura nacional é fortemente aberta a auto complacência, a auto indulgencia, ao fatalismo (sempre foi assim! A saída para o Brasil é o aeroporto!) e a volatilidade emocional.  A liberdade humana, de acordo com essa corrente de pensamento, aumenta com o autocontrole, com a autodisciplina, com a consciência crítica, com a busca pela razão. A liberdade defendida pela Escola Austríaca é um exercício olímpico nesse sentido! 
                O desafio de aumentar a liberdade não é fácil por essa razão. O Novo tem um desafio gigantesco em relação a conscientizar os indivíduos sobre a sua responsabilidade e torna-los sócios no nosso projeto (ver: www.novo.org.br). Isso é fundamental para termos sucesso em outro desafio: motivar o cidadão a atuar na política com visão de longo prazo!
                Isso é precondição para termos sucesso no aumento das liberdades (politica, jurídica e econômica) e atingir nosso objetivo de reduzir o papel do Estado para aumentar a prosperidade criando um contexto capacitante para a inovação e o empreendedorismo.

                A virada de uma sociedade com uma visão mais coletivista, que olha para o indivíduo como um incapaz que precisa ser tutelado pelo Estado, para uma mais individualista, que olha para o indivíduo como o único ente que de fato produz valor, na verdade coloca um desafio para cada cidadão.  Precisamos que cada um seja mais forte, acredite mais em si e seja mais responsável por suas escolhas. Teremos esse desafio na campanha. Precisamos de cada indivíduo que acredita nisso trabalhando para conscientizar, atrair e engajar outros cidadãos no nosso projeto! Juntos seremos muito mais fortes. Juntos somos NOVO!
Sobre a informação, a desinformação e os riscos para a democracia

                Na teoria, a democracia é um conjunto de regras que garante que a gestão pública é feita de acordo com a vontade da maioria. É um mecanismo de fragmentação do poder (nas três esferas: legislativo, executivo e judiciário) que garante os direitos dos indivíduos frente à concentração de poder necessária ao funcionamento do Estado e a garantia da liberdade. É contra intuitivo achar que a liberdade se relaciona positivamente com o Estado. Mas basta lembrar da sociedade medieval, antes da unificação dos territórios em Estados nacionais: havia o monopólio da força pelos senhores feudais mais fortes e todos viviam sob domínio das suas regras. Não havia mecanismos de garantia de contratos, não havia justiça e não havia polícia para a qual ligar se alguém entrasse violentamente na sua casa e impusesse a sua vontade por meio da força.  O filme de Mel Gibson, Coração Valente, é um bom exemplo do que é isso. O filme “O Nome da Rosa”, baseado no romance de Umberto Eco, também, pois mostra o que acontece quando uma instituição (a igreja daquele tempo) dá as regras sobre o que pode ser lido, dito ou pensado. Foram séculos de evolução até chegar em um arranjo em que os direitos dos indivíduos pudessem estar garantidos. A concentração do direito ao uso da força pelo Estado e a regulação do seu uso por meio da lei discutida democraticamente foi o que acabou com esses abusos. A liberdade de ir e vir, especialmente das mulheres, fisicamente mais fracas, dependeu de um arcabouço legal capaz de condenar à prisão quem, no uso da sua liberdade e dos seus direitos, viola a liberdade e o direito dos outros.
                A defesa dessa liberdade dos indivíduos: contra a opressão direta por outro ser humano e a liberdade de escolha (entre permanecer ou não em uma relação contratual e liberdade de empreender) gerou um enriquecimento sem precedentes nas sociedades que conseguiram se organizar para garanti-la. Há aqui uma questão chave para nós, hoje, no Brasil: garantir que o Estado seja essa organização criada pela sociedade para garantir direitos, contratos e a liberdade. Um Estado capaz de garantir o direito à vida (ninguém pode matar ninguém por força da sua vontade), o direito à liberdade (só o Estado pode condenar, punir e emprisionar) e o direito à propriedade é fundamental para a produção de riquezas e a viabilização da justiça. O contrário disso seria a guerra de todos contra todos, em que indivíduos gastam suas vidas lutando para não ser atacado naquilo que em sociedade chamamos de direitos fundamentais, ou a perda da liberdade causado por uma organização estatal que não garante a liberdade e os direitos, mas usa a concentração de poder para impor sobre a sociedade um projeto que não representa o melhor interesse da maioria.  De modo geral as pessoas concordam com essa ideia de liberdade e de que o Estado deveria garanti-la…. A não ser quando aqueles que são contrários a ela embaralham a comunicação….
                Durante os últimos anos vivemos sob o governo de um partido que, no discurso público defendia aquilo que acreditava que a população queria ouvir, mas pelas costas da sociedade criava um projeto de aumento do seu poder para implantar um regime que, se explicitassem, se falassem as claras, se botassem em discussão, a sociedade não aprovaria. As campanhas foram montadas sobre mentiras. As estratégias das agências de publicidade que desenvolveram o marketing político no Brasil estão baseadas não apenas em argumentos falsos, mas em estratagemas e planos táticos desenvolvidos para gerar confusão e desinformação. Mente-se, não apenas por falta de caráter, mas como parte de um projeto de poder. Enrola-se a comunicação para que a maioria não consiga, no caos de argumentos desconexos, articular um discurso de orientação por valores que seja a síntese daquilo que deseja ver na prática política. No meio do caos, os indivíduos se sentem incapazes de saber quem é bom e quem é ruim, o que é possível e o que não é, e acabam por ser levados por simpatias ou pela emoção.  Esse é o começo do fim da democracia e de séculos de esforços por garantir que as liberdades individuais e a racionalidade na escolha prevalecessem no cenário político. As campanhas baseadas em simpatias e emoção só beneficiam aqueles que, se apertados no terreno duro da racionalidade e possibilidades concretas, perdem espaço para suas agendas ocultas e seus acordos mirabolantes.
                É por isso que mantemos a ancora no pragmatismo, na orientação por valores e no discurso simples de quem lida com dados, fatos, possibilidades e restrições reais. Contra todas as formas de engano, confusão e conflito, que são estratégias de poder que destroem os direitos individuais e as liberdades, voltamos sempre aos dados, fatos e valores. Essa é a estratégia de resistência necessária aos cidadãos comuns que dizem não às formas espúrias de fazer política.  Não nos interessa ganhar com mentiras. Não nos interessa a confusão. Não nos interessa uma campanha em que oponentes pegam frases soltas, fragmentos de informação, e nos atacam. Essa é a forma de fazer política dos desonestos e das suas vítimas, aqueles que, sem domínio das próprias emoções, saem atirando argumentos como loucos no meio dos debates sem sentido buscando desesperadamente acreditar que com isso conseguem fazer a diferença no meio da gritaria. Estamos do lado dos que fazem o duro exercício da ética e da razão. Serão necessários: resiliência, autocontrole, foco e paciência na dura tarefa de fazer uma campanha limpa. Vão nos atacar de todas as formas. Essa é a tática dos nossos oponentes. Nos manteremos firmes na busca por valores e na racionalidade ancorada em dados, fatos, possibilidades e restrições.  Como cidadãos na política prometemos lutar contra o caos produzido pelas táticas de desinformação, rotulação, acusações soltas e decisões precipitadas e parciais. Faremos isso porque temos certeza de que essa é a única forma de representar cidadãos como nós, comprometidos com a qualidade da escolha na política, com representatividade democrática, com a concretude das promessas, dentro de uma sociedade de indivíduos capazes de exercer a liberdade com responsabilidade.